Opinião
Cadeira de rodas
RONALD MENDONÇA * Presenças sui generis em meios hospitalares, as macas e as cadeiras de rodas continuam sendo os meios de transporte oficiais nesses ambientes. Fim de linha para muitos, opção libertadora para outros, a cadeira de rodas (ao contrário da maca) tornou-se indispensável ingrediente da vida moderna extra-hospitalar. Com uma oferta de modelos para todos os bolsos e gostos, o utensílio ganhou status, saindo às ruas, ocupando praças, invadindo salões de festas, quadras esportivas, boates e shopping centers. Caprichosos usuários têm modelos diferentes para cada ocasião. Paulatinamente, o preconceito tem sido derrotado. De olho no filão mercadológico, especialistas do mundo inteiro reúnem-se periodicamente para discutir os avanços no setor. Com essa finalidade, importante fabricante promoveu recentemente um seminário sobre ?A cadeira de rodas dos seus sonhos?. Hoje, não são poucos os marqueteiros debruçados sobre o tema. (Há até slogans: ?Cadeira de rodas, um dia você ainda terá a sua?, ?Deixe o seu vizinho babando de inveja, compre a sua?). Buscas históricas demonstram a forte influência das marés dos estilos e costumes nas concepções das cadeiras de rodas. Assim é que se descobriu que, na Idade Média, a Inquisição intuíra um modelo com dispositivo para acumular combustível. Na época da Revolução Francesa, para poupar o trabalho de transferir os nobres deficientes das suas cadeiras, os desenhos já continham adaptações para a célebre navalha. Modelos comunitários existiram na Rússia até pouco tempo, bem de acordo com a ideologia vigente. Já no nosso SUS, faltam até os modelos pé-de-boi para distribuir com os usuários. A literatura mundial criou tipos inesquecíveis, como o marido de Lady Chaterly, que cavalgava uma aristocrática cadeira de rodas enquanto madame se regalava com o empregado. Na política, sobrou a figura de Roosevelt montando sua indefectível cadeira, simbolizando a gratidão pelo resgate do orgulho americano. Dos meus tempos de menino guardo a lembrança da rude impressão ao ver um amigo preso a uma cadeira de rodas. A doença viera de súbito e o pai do garoto, um marceneiro, criara um modelo especial, digamos, ?júnior?, com um mínimo de acabamento, que a gente empurrava bairro a fora. A cadeira sacolejava tanto no calçamento que o garoto várias vezes despencou do assento. Dizia-se à época que se fosse feito um modelo muito confortável o doente corria o risco de se acomodar e nunca mais andaria com as próprias pernas. Não sei se foi por isso, mas o fato é que a recuperação ocorreu em poucos meses. (*) É médico e professor da Ufal.