Opinião
Pior do melhor
MARCOS DAVI MELO * O desempenho do deputado federal Roberto Jefferson na Câmara foi extraordinário. Entrou como inimigo público, do Congresso, e embora não apresentasse provas, não tivesse nenhuma referência em seu passado político que o elevasse, saiu-se tão bem que a impressão deixada foi a de que ganhara não só uma parcela significativa da opinião pública, como novos aliados no parlamento. A repercussão popular foi enorme e as pesquisas de opinião mostraram que mais de 90% dos consultados acreditam no que Jefferson falou. Quando acusou os outros partidos da base aliada de receberem dinheiro grosso da direção do PT, a impressão deixada foi a de que estava falando a verdade, apesar da negativa do acusado. Um partido político de direita, arrolado entre os fisiológicos (o PTB), declara de público que recebia propina do PT, um partido político de esquerda, que se alçava a uma condição acima dos demais em postura ética não significa só que todos os partidos são iguais na guerra para ganhar eleições e usam os mesmos meios - o argumentum ad crumenan, o apelo a bolsa - isto implica em muito mais. A questão da corrupção sempre foi um divisor de águas entre a esquerda e a direita. Enquanto a direita encarava a corrupção como uma tentação à qual os indivíduos se submetiam e alguns sucumbiam (os desonestos), e isto não alteraria a ordem natural das coisas e, para combatê-la seria suficiente o rigor das leis e da polícia; para a esquerda, a corrupção implicaria em muito mais: seria o desvio dos recursos que propiciariam o acesso dos desafortunados aos benefícios sociais, seria inviabilizar a libertação dos oprimidos da opressão do capital. Neste sentido, a corrupção seria uma aberração anatemática, uma prática contrária a sua própria ideologia, o comprometimento do PT seria o que São Gregório afirmou em suas ?Considerações Morais sobre Jó?: Corruptio optimi pesssima, a corrupção do melhor é a pior das corrupções. Pode-se imaginar o que se passa na fração ideológica do PT e na sua aguerrida militância, que sempre tiveram entre as suas principais bandeiras, a insaciável rejeição a corrupção. Esquerda, mesmo após a queda do muro de Berlim, e direita, são tão indispensáveis como situação e oposição para o equilíbrio da gestão pública. E a frustração atual das esquerdas pode ser dimensionada pelo expressado por João Ubaldo Ribeiro: ?Penso que exista um coração de direita e um de esquerda. Enquanto os direitistas acham que o que move o ser humano é o egoísmo, os da esquerda pensam no homem como um ser aperfeiçoável. Meu coração é de esquerda?. Angustiada e desorientada, ela espera uma luz no fim do túnel. (*) É médico.