Opinião
Anjos da lama
Maria de Fátima Machado * Eram anjos e não estavam no céu. Brincavam na lama, lambuzando os pés, procurando qualquer pequena coisa que mudasse a cara do cotidiano. Eram anjos barrigudos... que botavam vermes por cima e por baixo sob os olhares assustados de suas pobres e adolescentes mãezinhas. Naquele dia, arrastavam pequenos potes cheios de areia. Eram anjos sujos, de cabelos ralos e farrapos de roupas que simulavam calções e calcinhas. Muitos deles estavam nus e sentiam frio. Ali, quando chovia, as casas ficavam cheias de água... água podre, malcheirosa. - Cuidado, falei respeitosamente... A mãe não podia ter dado os potes dos exames de fezes para as crianças brincarem!!!! Elas enchiam os potes com areia e arrastavam por ali feito carrinhos de brinquedo. Assim o exame ia dar errado! - Mas, argumentou a mãezinha, elas fazem cocô pelo chão.... no lugar onde brincam... por todo canto. Não tenho banheiro em casa. Se vou apanhar o cocô de cima da areia, não vai estar ? sujo? de qualquer maneira? É verdade, pensei comigo mesma... - Vamos colher no banheiro da escola da igreja; lá se pode colocar um saco e assim a coleta será feita de forma certa. Eram anjos e estavam com fome... nada tinham comido e já eram 9 horas da manhã! Alguém chegou do mercado com restos de frutas passadas e logo formou-se um cordão de crianças pedindo: um pedacinho!!! um pedacinho!!! Eram anjos e não escutavam cânticos celestiais... escutavam brigas, xingamentos, conversas sem pé e nem cabeça dos cheira-colas chapados. Outro dia, escutaram tiros e gritaria... provavelmente se assustaram e choraram baixinho, com medo de chamar atenção. Eram anjos! Sim... podia ver em seus olhos toda a pureza e alegria quando olhavam para o céu acompanhando o vôo de uma pipa. De fato, eram anjos! De fato, são anjos abandonados, morando não em nuvens branquinhas flutuantes no céu azul, mas em casas feitas de plástico preto e velhos pedaços de madeira. São anjos teimosos lutando para sobreviver no limite da imoralidade e descaso absoluto. São anjos que se escondem em casas inseguras e com ligações elétricas clandestinas. São anjos sem lenço e sem qualquer documento. Olhamos a lagoa e enchemos a boca de água, quando lembramos de um bom prato de sururu. Esses anjos são filhos dos pescadores e das marisqueiras catadoras de sururu de capote. Esses anjos moram na favela Sururu de Capote e precisam de um olhar amoroso e solidário da sociedade alagoana, para que não se tornem anjos caídos num tempo futuro, nem anjos precoces em tempos bem próximos. (*) É nutricionista, PhD em Antropologia e professora da Ufal.