Opinião
Vida inteligente no front
Luciano Siqueira * Que têm a ver os movimentos sociais com a atual crise política? Tudo. Especialmente porque a concretização das reivindicações emergentes do povo brasileiro está vinculada umbilicalmente à sorte do atual governo. Parece óbvio, e é; mas nem sempre essa é a compreensão de grande parte dos dirigentes e ativistas dos mais combativos segmentos da luta social, que, com algumas poucas exceções, vinham se comportando como se o preço da independência e da autonomia em relação ao governo (que precisam ser mantidas) fosse necessariamente a omissão diante dos ataques da direita. Mais: ao adotarem, em muitas situações, um discurso muito parecido com o que faziam contra FHC (um governo adversário), colocavam-se, na prática, como força de reserva da oposição, contribuindo assim para enfraquecer o governo aliado. Mas eis que surgem sinais de vida inteligente no front. Quarenta e três entidades e movimentos de dimensão nacional (Central Única dos Trabalhadores, Movimento Sem-Terra, União Nacional dos Estudantes, União Nacional dos Estudantes Secundaristas, Associação Brasileira de Imprensa e outras), aglutinados pela Coordenação dos Movimentos Sociais-CMS, anunciam uma série de manifestações públicas em defesa do governo Lula. E também favor das mudanças, a partir do próximo dia 1 de julho, em Goiânia, por ocasião do Congresso Nacional da União Nacional dos Estudantes. Não se trata de adesão nem de apoio acrítico. Na Carta ao povo brasileiro, título seguido por um longo subtítulo onde se declara ?contra a desestabilização política do governo e contra a corrupção; por mudanças na política econômica, pela prioridade nos direitos sociais e por reformas políticas democráticas?, que a Coordenação dos Movimentos Sociais divulgou, na última terça-feira, são apresentadas importantes reivindicações ao presidente da República e ao Congresso Nacional ? destacadamente a alteração de rumo na política econômica, em favor da produção e do emprego, a que se associam a solicitação de rigorosa apuração das denúncias de corrupção e a realização de uma reforma política e eleitoral de cunho democrático. Essa mudança de conduta por parte de tão expressivas entidades sociais pode vir a se constituir num dado novo a influenciar o envolver da atual crise política, que é hoje a expressão mais crua da complexa e conflituosa transição do modelo herdado a um novo projeto de desenvolvimento para o país ? tarefa central do atual governo, que encontra pela frente mil e um obstáculos levantados pelas forças derrotadas no pleito de 2002. (*) É vice-prefeito do Recife.