Opinião
As auditorias e os m�dicos
MARCOS DAVI MELO * Em 2002, uma auditoria do Ministério da Saúde chegou à Santa Casa de Misericórdia de Maceió. Era composta por burocratas que foram recebidos de braços abertos e as portas lhes foram escancaradas. Estiveram na radioterapia, estavam interessados apenas na máquina que trata câncer com aplicações de radiações. Era a única em funcionamento e atendia a todos os pacientes com câncer de Alagoas. Em nenhum momento se dirigiram aos pacientes que estavam sendo tratados para saber se estavam sendo bem atendidos ou não. A auditoria durou quatro meses e neste período vasculhou exaustivamente o hospital. Ao final declarou que existiam irregularidades. Um hospital do tamanho da Santa Casa onde só o setor que coordeno a radioterapia atende cerca de 200 cancerosos e realiza mais de 800 procedimentos de alta complexidade por dia, isto seria possível e aconteceu. Relativo às irregularidades, não adiantou comprovar que fazíamos exatamente como no resto do País, inclusive no Instituto Nacional do Câncer (Inca). Insistimos que consultassem o Inca para dirimir as dúvidas, o que predominou foi o parecer de uma burocrata emitido de seu longínquo e refrigerado gabinete de Brasília, onde certamente nunca viu nem de binóculo o sofrimento de um único paciente com câncer do SUS e muito menos do Nordeste. Houve erros administrativos em outros setores, como a quimioterapia, onde o número de pacientes é ainda maior, a sobrecarga de trabalho imensa, mas não foram dolosos. As médicas que atendem ali são reconhecidas pela competência, seriedade e probidade. A auditoria relacionou como irregularidades as cirurgias de câncer múltiplas com uma única anestesia, o que é tecnicamente correto e evita que o paciente sofra várias anestesias. Os convênios privados reconhecem e pagam isto. Por que os pacientes do SUS não podem ser beneficiados? Existem regras básicas para as auditorias e uma delas é que os auditores devem registrar os defeitos e as virtudes do auditado. Isto nunca foi feito e era muito fácil. Era só falar com os pacientes e ver como eram bem tratados, mas isto foi desprezado. Os burocratas só examinaram os papéis, foram insensíveis e inclementes porque desconheceram os pacientes e seus sofrimentos. Nós, os médicos, que cuidamos dos pacientes, suas famílias e seus dramas, temos pouco tempo para a burocracia; erros administrativos foram cometidos e estamos pagando por eles. Mas os nossos pacientes foram beneficiados. A Santa Casa de Misericórdia de Maceió admitiu os erros, já os corrigiu e pagou o que devia. Ela faz questão de abrir para toda a sociedade o quanto recebe e o quanto gasta com o atendimento ao SUS. (*) É médico