Opinião
Proselitismos lis�rgicos
RONALD MENDONÇA * Conta-se que na Sicília - recanto da Itália conhecido pela rigidez moral e onipresença da máfia - vivia uma linda viúva solitária. Muitos anos haviam se passado desde a morte do marido, mas a mulher permanecia incólume a toda sorte de investida. Católica até não mais poder, as negações aos assédios corriam por conta, sobretudo, de não haver homem solteiro naquele fim de mundo. De tanto recusar, aos poucos, foi ficando claro que a viúva era um bunker inexpugnável, sendo, portanto, debalde insistir. A sexualidade da senhora parecia jazer com o marido, e fim. Mas como há sempre um recalcitrante, um deles rastejou, rastejou, até que um dia foi premiado. Talvez por filantropia, a viúva lhe daria uma colher de chá; sim, passariam a relacionar-se. Haveria, no entanto, uma promessa a cumprir: o beneficiário das carícias jamais poderia relatar a terceiros o que estava prestes a rolar entre os dois. Não foi uma decisão fácil. Habituado a reunir-se todas as tardes com os amigos para ouvir e contar vantagens, o siciliano tinha a convicção de que não iria segurar a língua. Imagine se daria para manter um segredo desses? Afinal, foram anos de cantadas no cheiroso pé de ouvido da cobiçada criatura... E agora, ficar calado? Não, se não puder dizer aos amigos é preferível não começar. O indulgente leitor vai me perdoar por relatar história tão pouco dignificante. É que diante do que está sendo descoberto nessa terra de Vera Cruz - depois chamada Brasil - a saída é sorrir para não chorar. Depositário-fiel de suposto patrimônio moral e ético construído em duas décadas de postura oposicionista sistemática - muitas vezes irresponsável, é bom não esquecer - o PT é a própria viúva da piadinha da Sicília. Louve-se, até que a agremiação de Delúbio Soares esforçou-se para não se macular. Com efeito, salvo as campanhas eleitorais bancadas pelos financiadores de todas as siglas, o partido da estrela solitária foi um marco de imagem de pureza da política brasileira. (A História certamente fará justiça registrando esse feito extraordinário). Contudo, a rendição do PT à corrupção não surpreende. Gordos, ricos, bem-vestidos e deslumbrados com o poder, hoje os companheiros defendem-se das acusações fazendo ?proselitismos lisérgicos?, usando uma expressão do ex-presidente Fernando Collor. Como na história da viúva, o ex-valente partido de São Bernardo rendeu-se ao hedonismo, e depois cobrou segredos de alcova a sicilianos de língua solta. (*) É médico e professor da Universidade Federal de Alagoas.