Opinião
Pelo direito humano de ter alimento
| Mª DE FÁTIMA MACHADO * Em países como o Brasil, a existência e persistência da desnutrição infantil, devem ser definitivamente consideradas como uma violação bárbara do direito humano de crescer e de ter acesso ao alimento. Há mais ou menos 15 anos, li uma matéria jornalística sobre ?o homem gabiru? que, na época, se referia à pessoa desnutrida (de baixa estatura) que vivia, como rato, do lixo. Em 2005, leio outra matéria na qual ?guabirus? são pessoas de estatura alta (tanto de tamanho quanto de classe social), acusadas de desvio de dinheiro da merenda escolar de crianças. Enquanto isso, na favela Sururu de Capote, onde os guabirus circulam livremente pelas casas, resultados de uma pesquisa feita recentemente mostram que, em cada 10 crianças examinadas, com idade entre 6 meses e 6 anos, 8 apresentam exame de fezes positivo para diferentes ovos e parasitas. Cerca de 46% das crianças de 6 meses a 2 anos estão desnutridas (déficit de crescimento leve, moderado e grave), enquanto que, na idade entre 2 e 6 anos, o percentual sobe para 49%. A anemia foi encontrada em 80% das crianças com idade entre 6 meses e 2 anos, e em 26,6% das crianças com idade entre 2 e 6 anos. Esses dados são escandalosos e bastante incômodos para as estatísticas oficiais, porque não se restringem a refletir apenas o caos da favela citada, mas de todas as outras que vivem em condições semelhantes de extrema miséria, dentro e fora de Maceió. O Homo Habilis, identificado há cerca de 2,5 milhões de anos, tinha em média 1,3m de altura. O Homo Erectus há 1,9 milhões de anos apresentava em média 1,65m. Isso significa dizer que o ser humano levou quase 600 mil anos para apresentar alteração em sua estatura, porque sua luta pela sobrevivência consistia em superar as barreiras naturais ambientais que causavam impacto no seu acesso à rede alimentar. Nossos ancestrais buscavam no meio ambiente uma forma equilibrada de satisfazer seus requerimentos nutricionais e assim sobreviver, enquanto que nós, muitas vezes, transformamos o meio ambiente num campo de extermínio para satisfazer os requerimentos do desenvolvimento econômico industrial. É preciso que as autoridades constituídas do poder público, em todos os níveis, tomem providências urgentes com ações claras e consistentes para garantir a efetivação dos direitos humanos de comunidades que, a exemplo da Sururu de Capote, sobrevivem apesar da lama e do abandono. É preciso também que a sociedade civil se engaje nessa luta, porque a luta pelo direito humano de crescer e ter acesso ao alimento é de natureza multidimensional e estabelece como prioridade o direito pela vida. (*) É nutricionista, PhD em Antropologia e professora da Ufal.