Opinião
Um homem justo
Bernardo Joffily * No momento em que escrevo - primeiras horas de 25 de junho de 2005 (um sábado) - é incerto o destino de Aldo Rebelo no governo Lula. Aldo pode deixar o ministério, para reassumir seu mandato de deputado federal pelo PCdoB de São Paulo. Ou pode permanecer no ministério, seja em outra pasta, seja até, quem sabe, na mesma Secretaria da Coordenação Política, de onde já foi apeado incontáveis dúzias de vezes, a julgar pelos comentários na grande imprensa, nos 18 meses desde o momento em que assumiu a pasta. Não arrisco um prognóstico. Esta reforma ministerial, mais do que as outras e em especial no que diz respeito à articulação política, será uma decisão personalíssima do presidente. Mas sei de uma coisa: para onde quer que vá, Aldo Rebelo irá com a inquieta cabeça bem erguida, a espinha reta e o coração tranqüilo. Aparentemente, vê vitoriosa, antes tarde do que nunca, sua defesa de um perfil de coalizão para o governo Lula, com forte presença do PMDB. E com certeza sustentou, em cada dia destes 18 meses, sua convicção republicano-florianista, de ?um homem que vê a função pública quase como um sacerdócio?. Em meio às turbulências da crise e denúncias de corrupção, é, como se dizia na Bíblia Sagrada, um justo. Não deve ser fácil a função pública nas circunstâncias concretas em que Aldo a exerce no Executivo. O Brasil de Lula é o primeiro país sul-americano, desde o Chile de Salvador Allende (1971-1973), a possuir ministros do partido comunista. O pioneiro foi Agnelo Queiroz, que assumiu o Esporte já em janeiro de 2003 - mas este é um ?ministério-fim?. Já Aldo Rebelo assumiu, em fevereiro de 2004, uma pasta que operava no coração do Planalto, no ?núcleo duro?, como se dizia então, do governo Lula. Já na época, a tarefa provocou indagações em companheiros de partido do ministro. Afinal, o PCdoB é um cristão-novo em matéria de participação no primeiro escalão do Executivo. E já então a resposta consensual foi pela não-participação. Ao jovem movimento socialista da época, parecia uma incongruência emprestar seus quadros para ?administrar o capitalismo?. Mudar essa visão está sendo um longo processo, no decorrer do qual vários partidos comunistas deixaram de existir. O fato é que Aldo Rebelo, com o aval de seu Partido, assumiu o desafio de participar no coração do governo, bem ali, no Planalto, com suas possibilidades transformadoras e também com seu preço de tensões. E que estas não foram poucas, nem esparsas. E que a todas Aldo enfrentou com seu sorrisinho nordestino no canto dos lábios, suas metáforas históricas, ou futebolísticas, e uma calma que pasma os jornalistas. (*) É jornalista.