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Anjos na contram�o: aprendendo a reivindicar

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IZABEL BRANDÃO * Há muito tempo, os protestos de rua parecem ter deixado de fazer sentido no Brasil. Pelo menos foi isso que pensava até a manhã do dia 28 de junho de 2005. Descendo a Ladeira dos Martírios ? ah, a simbologia do nome! ? andando de mãos dadas e carregando faixas e cartazes lá vinham dezenas de anjos de asas, anjos meninos e meninas, alguns quase bebês, de 3, 4, 5 anos, de chupeta na boca; outros com apito, cantando, brincando, gritando: ?Queremos comer! Queremos crescer! Queremos casa!? Era um protesto, uma manifestação como há muito tempo eu não via. Crianças em idade escolar na rua, reivindicando seu direito de crescer e de ter acesso ao alimento, conforme a fala da consultora científica do projeto vinculado a FAO (órgão da ONU que trata da fome no mundo) e professora da Ufal, Fátima Machado de Albuquerque. Essas crianças estão lutando por um direito inalienável do ser humano que, por viverem onde vivem ? na Favela Sururu de Capote ? são excluídas de qualquer assistência real que lhes permitam atendimento de saúde, de escola, de uma vida digna, de um futuro melhor. Mas qual o futuro de um povo que não tem endereço fixo ? morar em casa de plástico preto dá direito a ter nome de rua? Não, disse irmã Lúcia, que coordena o Projeto Sururu de Capote, que vive de doações, porque não há nenhum poder constituído que olhe por aquelas crianças. O olhar que elas têm é o da irmã Lúcia, de Vânia, líder da comunidade, das professoras e do padre Pedro, italiano radicado em Maceió, responsável pela paróquia onde o projeto funciona. Há uma escola que cuida das crianças em turmas multiseriais, de 7 a 14 anos. É assim que a professora Socorro, que tem ?Magistério completo?, vê o projeto. Afinal, as crianças vão à escola. Uma escola não institucionalizada, mas uma escola. Fazer o quê? Aprender a ser gente. Mas, que gente, se nem a endereço fixo, com nome de rua, têm direito? Gente que precisa comer e só come na escola da Paróquia Sururu de Capote. Essas são crianças que não estão nas ruas se drogando, ou se prostituindo, ou roubando, porque têm um espaço onde são cuidadas e alimentadas. Pelo direito de crescer. Pelo direito de comer. Pelo direito de morar decentemente. Os anjos sentavam-se pelo chão com suas pombas de isopor branquinhas e brincavam de jogá-la para lá e para cá como se estivessem voando. Entendi por fim a razão porque esta véspera de São Pedro foi tão ensolarada: o céu abriu suas portas e deixou seus anjos descerem a Ladeira dos Martírios e falarem. Tomara tenhamos ouvidos de ouvir e ações concretas a realizar. O futuro dessas crianças depende disso. (*) É professora da Universidade Federal de Alagoas e poeta.

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