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L�cio Cardoso, segundo Enaura

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Agatângelo Vasconcelos * Enaura Quixabeira, conforme o seu prefaciador Bernard Emery, ?é, sem a menor dúvida, a melhor especialista brasileira de Lúcio Cardoso?. Basta que se leia com a devida atenção o recente lançamento da professora alagoana para que se lhe admire o conhecimento no que se refere à obra vasta e multiforme do consagrado autor mineiro. Trata-se do livro Lúcio Cardoso, paixão e morte na literatura brasileira, cujo estilo límpido e fluente não causa trabalho para ser absorvido por uma leitura preguiçosa e descompromissada. É para ser maduramente compreendido e assimilado em suas ilações e proposições, todas baseadas nos escritos autobiográficos e ficcionais que integram o instigante e complexo mundo cardosiano. Luiz Gutemberg discorrendo sobre o trabalho em apreciação, afirma: ?Este é um livro de quem não deseja facilitar, mas revelar caminhos; que não é guia de museu para turistas diletantes, mas uma provocadora de análises críticas.? Ao longo do livro é feita uma abordagem compreensiva pelas vertentes freudiana e lacaniana, assim como filosófica conforme a contribuição analítico-existencial de Kierkgaard. É por tais caminhos, tão iluminados, que Enaura Quixabeira encontra na condição humana de Lúcio Cardoso o entendimento do seu projeto estético-literário. Na singular saga cardosiana a professora Enaura constata uma unidade capaz de ser percebida como um todo. E sem afastar-se da criteriosidade própria de uma tratamento acadêmico, deixa-se arrebatar pela beleza e magnitude da produção artística, objeto do seu estudo. Pela emoção que esta lhe desperta, externa entusiasmo sincero, mas comedido: afetos sob controle, ainda assim afetos! Uma das contribuições mais significativas do ensaio é a análise da religiosidade de Lúcio Cardoso. É quando a autora propõe que o misticismo cardosiano mais se aproxima ?de uma metafísica cripto-cristã que cristã?, eis que o desesperado homem cardosiano dispõe de duas veredas (ambas muitíssimo próprias de cada indivíduo) para alcançar o Transcendente. Uma, a via do pecado, geralmente o rompimento da interdição de Eros; outra, a configurada por este mistério insondável, Tânatos, comumente em Lúcio Cardoso, antecedido pelo sofrimento. Não por acaso todo escritor deixa se envolver pelo tema do qual se ocupa. Por conseqüência do seu existir-no-mundo, todos são levados (enlevados?), por situações catatímicas, circunstâncias estas, como acontece com a ensaísta conterrânea. Há um Lúcio Cardoso de Enaura, certamente porque existe também uma Enaura de Lúcio Cardoso, autora de um trabalho que se eleva na planície. (*) É médico e professor universitário.

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