Opinião
Os amigos e a longevidade
MARCOS DAVI MELO * Foi na Austrália que veio à lume o resultado de uma pesquisa, que mostrou o que qualquer um com mais de 40 anos já sabe: ter bons amigos além de melhorar a qualidade também prolonga a vida. Este estudo foi publicado agora no respeitado Journal of Epidemiology and Comunity Health. O estudo se deteve em avaliar as pessoas que ultrapassaram os 70 anos e sondar porque eles viveram mais que a média. Acompanhou mais de 1.500 indivíduos ao longo dos anos para saber quais os fatores que mais influenciaram em sua longevidade, principalmente os sociais, os físicos e os psicológicos. Entre as principais conclusões da pesquisa está a de que mais de que a convivência com familiares (filhos, netos e parentes) que seria involuntária e com os quais tiveram pouca interação, uma rede maior de relacionamento com pessoas com quem tiveram uma maior afinidade, com quem trocaram confidências, com que compartilharam bons momentos, mas, principalmente, os maus momentos, quando foram estimulados e encorajados pelos amigos, isto foi o mais importante na longevidade. Estes foram os bafejados pela fortuna da verdadeira amizade descrita por Sofocleto: ?Amigo verdadeiro é aquele que nos quer apesar de nada?. Rachel de Queiroz em sua obra 100 Crônicas Escolhidas já previa esta pesquisa quando afirmava: ?Pode haver nada mais confortável neste mundo do que um amigo velho? Não tem surpresas conosco, mas também não espera de nós o que não podemos dar. Não se escandaliza com o que fazemos, não se irrita, ou, se se irrita, é moderadamente... Não precisa a gente lhe explicar nada, o mecanismo de novos interesses e até mesmo de novos amores, porque o velho amigo conhece todos os nossos mecanismos. Mas, além dessa capacidade de compreensão quase infinita, se o amigo velho nos é acima de tudo precioso é porque preciosos também somos nós para ele?. Não se queira ver na prosa de Rachel nehuma conivência com o amigo que pratica atos ilícitos, desabonadores ou que prejudiquem o próximo, isto não seria amizade, mas condenável cumplicidade. Mas sim a maturidade na observação e no acompanhamento solidário dos altos e principalmente dos baixos da vida. Isto será sempre muito importante, mormente em uma época como esta, quando o chão treme e o céu parece que vai desabar. Possivelmente, se esta pesquisa fosse feita aqui, os familiares teriam uma importância bem maior, mas isto é apenas uma hipótese. A certeza é que na amizade verdadeira sempre se imporá o velho axioma de Cícero: ?O amigo certo se reconhece numa situação incerta?. (*) É médico.