Opinião
N�o � bom ser brasileiro
RONALD MENDONÇa * Mesmo com dois gols favoráveis ao Brasil, o sono me pegou antes mesmo do início do segundo tempo. Felizmente ainda despertei com a bola rolando. A Argentina tinha encaçapado um, mas em compensação tomara mais dois. O apito final foi seguido dos gritos do locutor da Rede Globo, Galvão Bueno: ?Acabou! Acabou!? Eufórico com a vitória histórica, o narrador ainda exclamaria: ?Como é bom ser brasileiro!?. A expressão ficou martelando na cabeça, ?Como é bom ser brasileiro!? ?Como é bom ser brasileiro!? Por um momento quase entrei nesse clima e até relembrei a consagrada metáfora: ?A seleção é a Pátria de chuteiras? do grande Nelson Rodrigues. Nessas divagações, as dúvidas encostaram. Será que um triunfo da ?canarinha? justifica proclamar que está sendo bom ser brasileiro? Embalado por essas idéias, viajei para 29 de junho da minha infância, quando a minha pátria era Bebedouro e o CSA era o meu time, e tudo parecia certo. A ampliação dos limites pátrios e a adoção de um escrete nacional alargariam os horizontes das emoções. Os anos passaram ficando patente que o futebol evoluiu. Marcado pela genialidade, o time de 70, de Pelé e Tostão, por exemplo, é apenas história. Ninguém mais pensa em jogar daquele jeito. De qualquer forma, partidas de futebol não devem ser vistas como algo além de meras disputas esportivas. Já em relação ao País a coisa agravou-se com o tempo. Como admitir que é bom ser brasileiro se o noticiário político do País é um cruel exercício de sadomasoquismo? Se delinqüentes estão nos ambientes de trabalho, na nossa cara, no nosso quintal? Triturados por uma carga tributária que agride toda a racionalidade, os assalariados da classe média (único segmento a pagar imposto de renda) estão sendo vigiados e mordidos por verdadeiros pit bulls travestidos de cobradores de impostos. Há uma via-crúcis adicional, uma vez que muitos dos que são impelidos a pagar ?impostos suplementares? simplesmente não têm de onde retirar recursos. Até porque os ganhos estão tão vergonhosamente defasados (virou piada repetir isso) que não há sobras. Se isso não bastasse, os contribuintes têm a inabalável certeza de que o imposto que ele paga destina-se ao sustento de fraudes, mordomias, nepotismos e farras nos 3 poderes. Quando não, alimenta o famigerado ?mensalão? e outras sacanagens gerenciadas pelo partido do presidente e seus afilhados em geral. Não, Galvão Bueno, nesse instante não está bom ser brasileiro. (*) É médico e professor da Universidade Federal de Alagoas.