Opinião
O que � isso, companheiro?
IZABEL BRANDÃO * Em dezembro passado, o mundo se chocou com as tsunamis que devastaram a Indonésia. Ainda hoje as conseqüências se fazem sentir e é bem possível que a recuperação - ambiental, social e psíquica - leve anos para ser efetivada. Nosso País parece ter sido abençoado pela (quase) inexistência de catástrofes ambientais. Mas há pouco mais de um mês o Brasil vem sendo devastado por uma dessas maldições. Refiro-me à gigantesca tsunami provocada pelas declarações inqualificáveis do deputado Roberto Jefferson. Aqueles atingidos pelas denúncias de envolvimento direto ou indireto com o esquema do mensalão ainda precisam ter sua culpa comprovada, para serem punidos pela justiça e (espera-se) pelo povo que, certamente, nunca mais os elegerá. No entanto, resta uma dúvida de base existencial: o que aconteceu com o voto de trinta e cinco milhões de eleitores/as deste País que elegeram aquele em quem depositaram toda a sua confiança e crença de justiça, honestidade e, acima de tudo, de probidade? Infelizmente, quer tenham ou não votado em Lula, nós nos tornamos reféns de um governo sufocado por auxiliares cujo ego e ganância pelo poder enterraram a histórica construção de uma esperança de mais de vinte anos. Por vinte e um anos ? só para falar da segunda metade do século XX ? vivenciamos uma ditadura que torturou e exilou boa parte dos que hoje estão no poder (alguns já até caíram). Por mais de vinte, construímos a esperança de ter a esquerda no poder contra a herança maldita da direita, que contribuiu para mergulhar o País num lamaçal de corrupção. Hoje, retomando um pouco a história, e sem saudosismos, estamos quase à deriva. O que aconteceu? A pergunta é, naturalmente, retórica: aperto para o povo e a corrupção reinando quase absoluta nas hostes políticas do País. Qual a diferença, afinal, se hoje o PT do Presidente Lula está fadado a ser comparado a todos os outros partidos políticos que construíram as oligarquias seculares que sempre usaram (e abusaram) do Brasil? Pode-se dizer, hoje, que esquerda e direita, estão tão próximas que se nivelam? Hoje, parte do PT, esse partido que fez história, também participa da história da corrupção no Brasil. Uma conhecida atriz foi à TV dizer que tinha medo, todo mundo se lembra dela e do seu conservadorismo elitista. E nós, essa geração que conheceu uma ditadura militar, que acreditou que a vida podia ter um pouco de alegria e esperança, o que podemos dizer? Estou profundamente envergonhada de não poder oferecer a meu filho um futuro melhor. Quero de volta o futuro do meu filho. (*) É professora da Ufal.