Opinião
Cont�nuo hist�rico
EDUARDO BOMFIM * Impossível negar a existência de um contínuo histórico, sempre acompanhado de crises agudas, em nosso País, envolvendo dois grandes campos políticos, econômicos e sociais. A nação transformou-se, alterou a sua geografia populacional, hoje predominantemente urbana, industrializou-se, ocupou espaços territoriais, com a construção de Brasília, tornou-se bem mais rica e aumentou o fosso entre os mais ricos e a maioria dos deserdados. Além disso, cresceu a dependência e vulnerabilidade da economia ao capital externo. Nesse período, a discussão sobre o destino da pátria foi o centro de todas as grandes disputas sobre qual o projeto nacional que realizaria a vocação do Brasil e do seu povo. Dentro desses dois grandes blocos, nunca houve uma posição homogênea, porque entre eles estão representados segmentos diferenciados, classes sociais distintas, e nem sempre a composição foi a mesma. Além disso, realidades internacionais diferenciadas, influíram substancialmente em nossa trajetória interna. É na esfera da política, a parte mais exposta e pública desse grande combate de natureza histórica, que se expressam abertamente os conflitos, a luta pesada, as divergências agudas, os desenlaces mais dramáticos. Assim, de um lado sempre existiram aqueles defensores de um País subalterno, satélite das grandes potências, sob o guarda- chuva e protetorado do império de ocasião. Não se trata de opção filosófica, mas de interesses concretos, ligações econômicas estreitas e indissociáveis. De outro lado, busca os rumos de um Brasil soberano, parceiro de outros povos emergentes, defensor da autonomia e não ingerência de um País nos assuntos internos dos outros. A revolução de 1930 lançou, de forma incompleta, as bases da industrialização e modernização nacional. Mas houve um confronto armado contra as velhas oligarquias agrícolas. A tragédia do suicídio de Getúlio Vargas decorreu da reação à criação da Petrobras, Eletrobrás e outras iniciativas que beneficiavam os trabalhadores e a faculdade de gerenciarmos os nossos destinos. O golpe de 1964 deteve, pelas armas, as reformas estruturais, econômicas e sociais, postergadas e incompletas até os dias atuais. O governo do presidente Fernando Henrique representou oito anos de inserção e subordinação ao capital internacional e desconstrução de setores estratégicos do Estado brasileiro. O fogo de barragem, a crise arquitetada contra o governo Lula, significa, noves fora corrupção, mais um capítulo dessa seqüência histórica. Sabemos que não será a última. (*) É advogado.