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Rui Agra, um lutador

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MARCOS DAVI MELO * No domingo passado estava almoçando em casa quando um telefonema angustiado chamou Milena, a minha filha mais nova. Era de Cristiane, uma amiga com quem convive fraternamente desde os tempos de escolinha do ABC. O pai de Cristiane, Rui Agra, estava sendo levado em condições críticas para a emergência do Hospital Artur Ramos. Minha filha partiu de imediato para o hospital e ao chegar deparou-se com um quadro desolador. O Rui, um respeitadíssimo médico oftalmologista de apenas 51 anos, acabara de falecer. Mais tarde quando o seu corpo chegou ao Parque das Flores, para lá me dirigi com o Marcial Lima, um amigo fraterno de todas as horas. Rui Agra era um homem muito sério que tinha dois objetivos na vida: a medicina e a família. Enquanto durou a sua curta existência, cuidou dos dois com igual carinho e responsabilidade. Sou testemunha porque entre tantos talentosos colegas desta especialidade, entreguei os meus pouco saudáveis olhos e os de minha família àquele profissional e sempre fomos muito bem-sucedidos. A última vez em que estive em seu consultório, onde também morava, levou-me para conhecer o pequeno day-hospital que há vários anos ali estava construindo, com muito sacrifício pessoal e familiar. Era o seu grande sonho: uma pequena clínica onde pudesse operar e futuramente também servisse para as suas duas filhas que hoje estudam medicina. Para isto não mediu esforços, embora possuísse uma vasta clientela em Maceió, nos fins de semana ainda arranjava forças para se deslocar ao interior do Estado, onde atendia quem necessitasse desta tão nobre quanto pouco acessível especialidade. Morreu antes de inaugurar a sua clínica. Para a família era um abnegado, um devotado. Como a maioria de nós, teve problemas com parentes que não foram tão responsáveis quanto ele. Mas nunca os abandonou, pelo contrário, teve imensos desgastes financeiros, emocionais e físicos para auxiliá-los em repetidas ocasiões e isto, com a luta pela sobrevivência, teve como resultado uma hipertensão arterial e uma úlcera gástrica, que vinha tratando, mas que são doenças cuja superação muito tem a ver com o difícil controle do estresse. Todavia, em casa tinha um ambiente dos mais gratificantes com sua esposa e as três filhas. Sua sóbria convivência social era quase que totalmente resumida a elas. No sábado à noite, véspera de seu falecimento, enquanto a esposa Virgínia dava plantão no hospital, ele via televisão com as filhas, com quem compartilhou meia garrafa de vinho, o que para ele era o supra-sumo do lazer. Rui foi um lutador que pagou com a própria vida pelas suas qualidades. (*) É médico.

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