Opinião
A fera est� sangrando
RONALD MENDONÇA * Há momentos em que a gente se pergunta se vale a pena ligar a TV para ouvir conversa fiada de parlamentares boçais e de empresários sombrios. Impelido pelo instinto avoengo, hoje prefiro programas de animais selvagens, infinitamente mais honestos e de onde procuro tirar lições. Tem sido um aprendizado fantástico. Na companhia dos olhares argutos e inteligentes dos meus netos, Caio e Maria Clara, envolvo-me de tal forma que chego a ficar irritado quando vejo bandos de leões atacando uma girafa desviada do seu grupo. Embora admire, sofro ao ver a inútil valentia da simpática pescoçuda, a defender-se com ingênuos coices, numa luta desigual e inglória. É duro ser girafa em terra de leões famintos. Num outro instante, uma solitária leoa-manca-desgarrada buscava comida para o seu filhote. Ferida e sangrando, a esposa do rei leão torna-se um irrecusável convite ao apetite de hienas em busca de alimentos fartos e de presas fáceis. A leoa claudica, mas não está morta. Num primeiro round, um rugido e um arreganhar de dentes afastam os atávicos inimigos. Perto dali, sozinho e faminto, o filhote da leoa solta plangentes gemidos despertando a atenção de uma outra fera notívaga, o leopardo. Depois de farejar a indefesa criatura (será que sentiu o cheiro da leoa e respeitou?), o temível caçador decide não tirar proveito da situação, deixando o terreno livre para as hienas. Imobilizada pelas lesões, a leoa acompanha todo o doloroso cerimonial, da captura ao estraçalhamento do seu bebê. A longa noite macabra estava longe do fim: insaciadas, as hienas querem mais e voltam a ameaçar a leoa ferida. Esta, pressentindo o pior, num derradeiro gesto, emite desesperados sons chamando o seu bando. Infelizmente, quem acode é um grupo de leões inimigos, que põem as hienas para correr, mas em compensação a devoram impiedosamente. Não sei se é um exagero, mas a atual situação do presidente Lula parece ter muito a ver com a da leoa ferida. Eleito vendendo a imagem de competente e incorruptível, ao chegar ao poder ficou claro que não havia plano de governo. Tardiamente descobriu-se que os destinos da nação tinham sido entregues a improvisadores medíocres e presunçosos. Restava a aura da honestidade. Agora, sangrando pelas denúncias de corrupção no coração do poder, acuado, Lula gritou por socorro atraindo a companhia dos imprevisíveis leões do PMDB. Temporariamente salvo dos carniceiros, tudo leva a crer ser uma questão de tempo o banquete, tendo como prato principal os despojos presidenciais. (*) É médico e professor da Ufal.