Opinião
Dias de horror
Luiz Lula Filho * Londres - Moro e trabalho na Inglaterra há 14 anos. Acabado o expediente da última quarta-feira e lá vamos nós, para comemorar a vitória da cidade como sede das Olimpíadas, fazer o que os ingleses mais gostam, encher a cara nos pubs seculares, tomando cerveja quente. Os pubs ingleses fecham britanicamente às 23 horas, depois disso voltei pra casa, o trabalho me esperava no dia seguinte. Entre outras atividades que desenvolvo em Londres, sou funcionário público do NHS (Sistema Nacional de Saúde), uma espécie de Ministério da Saúde. O hospital em que trabalho como administrador de empresas fica a apenas dez minutos de minha casa (andando). Em se tratando de Londres, um grande privilégio. Porém, aquela quinta-feira, 7 de julho, exatamente um dia após a grande comemoração, foi tudo menos rotina, ou ressaca, e muito menos teve espaço para alegria. Como trabalho na área de saúde e todos os hospitais foram solicitados para os primeiros-socorros dessa quinta-feira de terror, é fácil imaginar como me vi envolvido com a tragédia. O The Royal London é um dos maiores hospitais de Londres, aqui trabalham mais de 6.500 funcionários, entre médicos, enfermeiros e pessoal administrativo, e fica perto, na mesma rua, de uma das estações atingidas, Aldgate East. Em comparação: seria, em Maceió, a distância entre o 59º batalhão e o Cepa ? não muito longe, mas na hora da agonia os metros se transformam em quilômetros. As outras explosões não foram muito distantes dessa região onde trabalho. Daqui para Liverpool Street seria uma distância semelhante entre o Cepa e a Praça do Centenário, e os outros dois pontos de explosões ficam um pouco mais distante, diria, algo como entre o Farol e o centro de Maceió. Naquela quinta-feira, trabalhamos até muito mais tarde, todos os funcionários que estavam de folga foram recrutados para trabalhar. Na saída do hospital, encontrei uma mulher desesperada à procura do noivo. Segundo ela, a última vez tinham conversado, ele havia feito uma ligação para o trabalho, avisando que iria chegar atrasado (achava que era um acidente no metrô) e que ia pegar o ônibus número 30, na estação de Kings Cross ? cinco minutos após essa ligação, um ônibus explodiu, abrindo o teto ?como uma lata de sardinha?, como descrito pelos jornais de todo mundo. Desde então ele havia sumido e até aquela hora não havia chegado ao escritório. Seria aquele o ônibus do noivo? A mulher estava em pânico. E difícil, muito difícil esquecer toda a tragédia, mas enfim, a vida continua. Dessa vez não senti nenhuma vaidade por morar em Londres, muito pelo contrário, senti uma sensação ameaçadora, uma sensação de que a qualquer momento pode acontecer tudo outra vez. E a vida continua, e aumenta a saudade de Maceió. (*) É jornalista e administrador de empresas.