Opinião
Que apodre�a
Eduardo Bomfim * Os principais dirigentes nacionais do PFL acrescentaram um forte ingrediente ideológico à crise política, ao afirmarem publicamente o desejo de que ?o governo Lula apodreça?. Uma vontade de presenciar essa gestão chegar ao fim do mandato encurralada, batida moralmente, isolada socialmente, bastando um sopro para ser esmagada nas urnas. Não é o que nos indicam as recentes pesquisas de opinião. O problema é que se sabe como começa uma crise, mas todas elas possuem uma dinâmica interna tão imprevisível que nem um vidente detém a premonição de como ela termina. Claros são os sinais de que assistimos, atualmente, a tentativa de se construir uma onda conservadora em todo o País. Os progressistas, os defensores da causa nacional, os democratas conseqüentes, conhecem os vendavais que assolam, eventualmente, o quadro da realidade nacional. No interior desse bombardeio na grande mídia, em meio às acusações, escândalos, fortunas em cuecas e malas, encontra-se em jogo a luta pelo controle das instituições do Estado. O alvo ultrapassa o Partido dos Trabalhadores. Estende-se ao campo progressista, nacional e popular. Visto que o PT é o partido hegemônico na esquerda e no governo, a derrota almejada atingiria a todos, generalizadamente. Mas a crise, em movimento, pode se transformar em um banquete canibalesco e consumir os seus autores. É importante ressaltar a declaração do novo presidente do Partido dos Trabalhadores, Tasso Genro, ao afirmar em O Globo que ?o partido cometeu o erro grave de achar que era dono exclusivo da ética?. Deduz-se que os outros não possuíam um pingo dela. Uma lúcida autocrítica. A cultura petista, forjada durante anos, possuía outro viés, a História dos trabalhadores brasileiros, teria começado quando da sua fundação em 1978. Essa distorção arraigou-se em maciças áreas da classe média, na aristocracia operária, além de segmentos da intelectualidade. Ademais, o PT assumiu uma predestinação, ética e reformista, quase messiânica. O atual contexto atinge e deprime boa parte dos setores médios, importante base social da esquerda. Mas falsa é a visão de que ele não tem saída. Exige a coragem de fortalecer o mercado interno, manter o nível das exportações, reduzir as taxas estratosféricas dos juros, redirecionando a economia ainda subalterna às regras do capital financeiro internacional. Investir em obras de infra-estrutura, escolas, hospitais, estradas, promovendo a criação de dezenas de milhares de empregos. Recuperar os salários defasados dos servidores etc. E reconstruir, como tarefa fundamental, uma sólida frente política pelas mudanças. (*) É advogado.