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Um adeus ao professor H�lvio Auto

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RONALD MENDONÇA * A morte do doutor Hélvio, esta semana, deixou a medicina órfã e mais pobre. Seu endereço à Rua Godofredo Ferro foi um dos mais procurados por clientes e pelos próprios colegas. Os clientes indo a busca de uma consulta de emergência, da salvação; os médicos atrás dos seus ensinamentos, luzes que pudessem guiar casos complicados de suas clínicas particulares. Vivi as duas situações. Como pai desesperado, muitas vezes bati à sua porta em horas impensáveis tendo nos braços um dos filhos ardendo em febre, entregando-me incondicional ao parecer do mestre. Outras vezes, na condição de médico, sentindo-me num labirinto clínico, levava minhas dúvidas e saía confiante, reconfortado. Oficialmente, fui aluno do professor Hélvio de Farias Auto em 1969, no quarto ano de medicina (nunca mais deixei de sê-lo). As aulas, ministradas em recintos que beiravam a insalubridade, no Hospital Dona Constança, não tinham nada a ver com a grandeza daquela figura mítica. Pessoalmente era um homem simples, discreto, cordial e bem-humorado. Como professor, não se transmudava: sereno, desprovido de afetações, e com o insuperável dom de transmitir dispensando pirotecnia. Os conhecimentos brotavam naturalmente e de tal forma organizados que suas aulas ficavam gravadas na memória. Não obstante, cônscio da importância da matéria que lecionava, estava muito longe do perfil do ?professor-bonzinho?. Não foram por acaso as incontáveis vezes em que foi homenageado pelas turmas de doutorandos de ambas as escolas médicas do Estado. Doutor Hélvio foi muito mais do que isso. Infectologista inigualável, como médico e ?eterno-diretor? do Hospital Dona Constança (hoje Hospital Hélvio Auto), exerceu uma atividade quase franciscana a exigir imensos sacrifícios pessoais. Pesquisador nato, mesmo depois de ter sofrido um acidente vascular cerebral, doutor Hélvio derrotaria o desânimo aprendendo a lidar com a internet, ferramenta que o estimulou a relançar recentemente preciosidades sobre Antibioticoterapia e Picadas por animais peçonhentos. De vez em quando nos brindava com deliciosas crônicas, expressando perspicácia e senso de humor. Certamente tudo isso foi importante. Entretanto, num mundo povoado de Daslus, Delúbios, Valérios e bestas-feras, onde a competência profissional se confunde com automóveis reluzentes, apartamentos luxuosos à beira-mar, gabirus, mensalões e fraudadores do SUS, o maior legado do doutor Hélvio é o seu indestrutível patrimônio moral e ético. O carinho, a admiração, a reverência e a saudade dos familiares e amigos avalizam sua irretocável biografia. (*) É médico e professor da Ufal.

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