Opinião
O corpo num pa�s em desenvolvimento
Fátima Albuquerque * Recebi um e-mail de um amigo que dizia: eis aqui algumas frases para fazer você sorrir. De fato, algumas delas me fizeram sorrir, mas uma delas, ainda que jocosa, me fez pensar no quanto estamos banalizando os resultados da pobreza em países em desenvolvimento. A frase, dita por uma famosa cantora americana, dizia: ?Sempre que eu assisto TV e vejo aquelas pobres crianças, passando fome em todo o mundo, eu não posso evitar e choro. Quero dizer, eu adoraria ser magérrima como elas, mas não com todas aquelas moscas, morte e outras coisas mais ao seu redor?. Num país em desenvolvimento, o conceito de estética corporal enfrenta todos os possíveis ?perigos? que possam ser manifestos por uma ?saia justa e curta?. Primeiro, porque a construção do conceito evoluiu contemplando todas as possibilidades do subjetivismo humano. Segundo, porque esse caminhar, respaldado pela necessidade de atender aos anseios e às necessidades ideológicas de certos grupos economicamente privilegiados, contribuiu para a determinação de alguns conceitos como critérios de verdade. Terceiro, porque esses critérios alimentaram a adoção de análises comparativas, que contribuíram para o estabelecimento de conceitos de aprovação (normalidade) e negação (desviante). Lombroso se perdeu na elaboração de uma teoria que insistia em associar determinadas características craniofaciais ao tipo de criminoso, dizendo que assassinos tinham maxilas proeminentes e batedores de carteira tinham mãos longilíneas e barbas ralas... Se isso fosse verdade, provavelmente um ET se assustaria ao desembarcar em algum país onde a democracia e o sentimento de cidadania não estivessem plenamente estabelecidos e as vias de corrupção devorassem vorazmente o dinheiro público. Não. Não podemos repetir e nos perdermos nos mesmos erros escabrosos. Stephen Jay Gould, biólogo americano, propôs a utilização de uma certificação de medidas da cabeça, indicativa de uma ?má medida humana?, para prejudicar pessoas e assim promover a eugenia. Vamos nós brasileiros definir nossas próprias ?más medidas humanas?? Vamos considerar a desnutrição ? expressa tanto pela baixa altura alcançada para a idade como pelo baixo peso para a altura, a elefantíase, a obesidade causada pela ingestão crônica de alimentos de baixo custo e baixa qualidade ? como fortes indicadores sociais de subdesenvolvimento e da má utilização de recursos públicos? Precisamos intervir na corrupção do país, precisamos sanear nossa política, mas não devemos nos desviar do que é implacável ? a temporalidade imprevisível da vida humana. (*) É professora da Ufal.