Opinião
O esc�ndalo
LUCIANO PIRES * Você se lembra da primeira vez que falou num celular? Não foi o máximo? Hoje celular é rotina, faz parte de nossas vidas e ninguém mais repara neles. O trato diário com o celular banalizou esse aparelhinho fantástico. Uma vez escrevi um texto sobre uma experiência num pronto-socorro, quando um médico friamente me comunicou que meu vizinho havia morrido. Jamais me conformei com aquela frieza. Depois refleti que o que era novidade para mim, era a rotina daquele médico. O trato diário com a dor, banalizou as tragédias. Houve um tempo em que assassinatos, estupros e seqüestros eram tratados como escândalos. Hoje, são notícias comuns, até mesmo esperadas, jogadas em nossas salas de visita diariamente. Ninguém mais se espanta. O trato diário com as tragédias banalizou a violência. E briga em campo de futebol? E menor abandonado? E motoqueiro atropelado? E corrupção no serviço público? É assim que gente funciona. Por mais incômoda que seja a situação, ao lidar com ela freqüentemente criamos familiaridade. E familiaridade banaliza. E aquilo que um dia foi um escândalo, vira normal... Pois o que tenho visto no Brasil é exatamente isso. A banalização generalizada em setores importantes, acabando por matar nosso senso de indignação. Preferimos rir a nos indignar... Pegaram um com dólar na cueca. Depois outro com sete malas. Aí o tal Valério movimentou mais de um bilhão... E vamos tratando a corrupção como algo endêmico, conformados: ?Ah, mas o Brasil é assim mesmo?... Aí, quando um sujeito faz escândalo com o caixa do banco ao ficar 30 minutos na fila, censuramos o escandaloso, não é? Pois é aí que pega. O brasileiro deveria reaprender a se escandalizar. Devíamos ficar escandalizados com as demonstrações de desleixo, mal caráter, burrice, com tudo aquilo, enfim, que nos incomoda. E o escândalo vira berreiro, o berreiro vira mobilização, a mobilização vira ação. Mudamos nosso comportamento para mudar o Brasil. Pois aqui fica minha recomendação. Antes de xingar, achar graça, conformar-se, reclamar ou fazer uma piada, escandalize-se! E não precisa fazer um escândalo público, armar um barraco, rodar a baiana. Apenas escandalize-se, silenciosamente, lá no fundo da alma. Sinta aquele gosto estranho na boca, o coração batendo forte, a fúria tomando conta de seu corpo. E pra desabafar, grite! Quem estiver perto pensará que você é louco? Fique frio. É assim que começa... (*) É jornalista e escritor.