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Palpite infeliz

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| Luciano Siqueira * Em tempo de crise, é preciso ter muito cuidado com o que se diz. Uma palavra mal posta, uma idéia enviesada, ao invés de clarear as coisas, confunde. O senador Aloísio Mercadante, líder do governo no Senado e um dos mais credenciados dirigentes do PT, não foi feliz na entrevista que concedeu ao jornal O Globo ? edição dominical de 10 de julho deste ano ? e na qual defendeu ?um reencontro do partido com os seus valores?. Ao ser indagado sobre a possibilidade de uma aliança futura com os tucanos, saiu-se com essa: ?PT e PSDB são os dois eixos de um movimento pendular da democracia brasileira hoje. Se nos unirmos, o que acho que num projeto a médio prazo é possível como hipótese política, pode ser uma belíssima experiência?. Lembrança imediata de Noel Rosa: ?Quem é você que não sabe o que diz/ Meu Deus do céu, que palpite infeliz?. Cá na província, ninguém entendeu. Em torno de quê se uniriam o PT e o PSDB? Certamente não seria em defesa da ética, pois nos oito anos de reinado tucano Fernando Henrique Cardoso praticou o governo mais aético de nossa história. O próprio presidente foi pilhado em ligações telefônicas pessoais em favor de determinado grupo privado no pantanoso processo de privatização das empresas estatais de telecomunicação (um dos quinze ruidosos escândalos não devidamente esclarecidos porque esbarraram, no Congresso Nacional, na resistência de muitos dos senadores e deputados do PSDB e do PFL, hoje tão ávidos em pedir CPI para tudo). Poderiam convergir PT e PSDB em prol de um projeto de desenvolvimento? Claro que não, pois o governo tucano afundou a economia na semi-estagnação e num absurdo padrão de vulnerabilidade externa, atentatório contra a soberania do País, de conseqüências desastrosas para o povo brasileiro. Então, para viabilizar a tal ?bela experiência? a que Mercadante se refere o PT teria que mudar muito - aí sim, abrindo mão dos seus valores. Ora, ninguém ignora que o PT vive uma crise de largas proporções. Crise política interna, crise de credibilidade perante a opinião pública. Superá-la é necessário não apenas aos petistas, importa muito aos seus aliados mais próximos e, por extensão, ao próprio processo democrático, tamanha a importância do partido do presidente da República. Daí a expectativa de que, com o empenho de suas lideranças mais representativas (o senador Mercadante inclusive) e a mobilização da militância, seus erros sejam expiados e a sua capacidade de iniciativa recuperada. Com as idéias no seu devido lugar. (*) É vice-prefeito da cidade do Recife.

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