Opinião
Empoderamento no Brasil: mudando o teor das rela��es
| Fátima Albuquerque * Tempos atrás, enquanto entrevistava uma pessoa com deficiência visual, sobre o significado de não enxergar no contexto da sociedade atual, ouvi o seguinte depoimento: ?Os olhos do cego é a mente... é a audição... é o tato... é a alma. Mesmo na pessoa normal, o olho vê muito pouco. Outro dia eu fui me confessar, aí um senhor que estava lá me disse ? Minha fia, você não tem pecado não! Você não enxerga! ? Aí eu disse: - Ei meu sinhô, eu posso não pecar através dos olhos, mas eu tenho língua pra pecar... tenho mente... a mente é que faz a gente pecar muito, a gente julga através da mente... Os olhos? É o que peca menos?. É verdade, pensei comigo mesma, ela estava certa... Sua palavra estava cheia de sabedoria e poder. O poder da consciência, do saber avaliar os limites de sua experimentação humana. O processo de empoderamento de uma sociedade decorre do confronto de poderes. Foucault considera o poder como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social, que somente existe quando se usa, que se estabelece na existência das relações. Vivemos em uma sociedade alicerçada em grandes desigualdades socioeconômicas e relacionais. Aqui, a baixa auto-estima parece ocupar um lugar privilegiado, especialmente nos setores mais sofridos da população. Por outro lado, o processo de empoderamento só se estabelece e se consolida com o exercício da auto-aceitação e do auto-respeito, com a mudança no teor das relações interindividuais. Pagamos impostos e por isso, tudo que é público nos pertence. Além disso, não podemos aceitar o preconceito de pessoas que rejeitam: os que moram em favelas, os que são desempregados, os que são doentes, os que são diferentes etnicamente, os que são analfabetos, etc. Não podemos passar o recibo do enfraquecimento de nossa nação. O País, a política e o dinheiro público nos pertencem. Se alguns setores da burguesia assumiram que querem ser mais ricos, às custas de fraudes fiscais, temos a esclarecer que nós brasileiros não aceitamos esse critério. Que sejam fechadas todas as Daslus! Se alguns setores capitalistas decidiram que a corrupção pode ser um bom mote para aumentar as vendas, temos a esclarecer que nós brasileiros, não vamos aderir à ?promoção mensalão?! Se alguns setores da política encontraram, no desvio do dinheiro público, a rota para a compra das consciências e dos votos, temos a esclarecer, que nós brasileiros (eu diria a maioria) não estamos à venda! Não nos identificamos com a cegueira ética. O espírito brasileiro é alerta e vidente. Estava certo Saramago quando disse: quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira? (*) É professora universitária.