Opinião
O luto e a naturaliza��o da vergonha
IZABEL BRANDÃO * O Brasil está vivendo uma situação de luto, pela perda de uma ilusão, de uma ideologia. Quem afirma isso, em entrevista a uma conhecida revista semanal, é Cláudio Eizirik, psicanalista gaúcho e futuro presidente da Associação Psicanalítica Internacional, instituição fundada em 1901 por Freud. Eu completaria dizendo que espero sinceramente que esse luto não seja em vão. Ou que não seja como em séculos passados que, mal o defunto (ou a defunta) saia em cortejo, o viúvo (especialmente) já começava a maquinar quem seria a próxima vítima que trocaria um rico dote por um casamento. Essa situação vergonhosamente triste que estamos vivendo atualmente tem me deixado, algumas vezes, um tanto perplexa. Refiro-me, naturalmente, ao assunto corrente de hoje do cotidiano brasileiro: CPIs que nos deixam de cabelos em pé, intenso tráfego aéreo de malas recheadas de dinheiro que compram redenções religiosamente políticas, peças íntimas masculinas guardando dólares, lojas chiques que vendem quinquilharias a peso de ouro sendo invadidas pela Polícia Federal, enfim. Sabemos todos que a história de corrupção, de pagamentos indevidos a políticos, de caixa dois, de sonegação de impostos, é muito antiga no Brasil. Vem, talvez, dos tempos em que os nossos colonizadores tentavam corromper os índios com espelhinhos em troca de algum favor. O que mais choca, contudo, nem são as denúncias de corrupção, ou as supostas combinações em entrevistas; ou alterações impacientes e raivosas entre políticos, ou, ainda, pretinhos básicos saindo às oito horas da manhã no carro chique da Polícia Federal. O que, de fato, incomoda e causa perplexidade é ouvir certos comentários inconcebíveis, tais como: ?Os brasileiros são corruptos por natureza, especialmente os pobres?. Se a corrupção no Brasil é ?natural?, pelo mesmo raciocínio, o crime também é natural, logo, não é (e nem deve ser) passível de punição. Essa é uma lógica perversa que naturaliza o que não presta. Por essa mesma lógica, só falta agora alguma dessas revistas de celebridades estampar na capa algum desses mais novos exemplos da corrupção no país usando algemas com pingentes de brilhantes e explodindo um sorriso para a lente que o/a fotografou. Definitivamente este não é o País que acredito. Eu me recuso a aceitar esse tipo de raciocínio que passa pela chamada ?dialética da malandragem? brasileira (no dizer de Antônio Cândido), perfeitamente aceita culturalmente pela sua ?naturalidade?. É preciso que não naturalizemos tantas coisas negativas que acabam por querer dizer, como se costuma fazer com a seca: ?É porque Deus quer...?. Prefiro pensar na naturalização da vergonha. Na cara. (*) É professora da Ufal.