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C�es e doces

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RONALD MENDONÇA * Na infância, durante mais de 15 anos, tivemos na nossa casa um cachorro preto, peludo, grande e desobediente, meio-policial-meio-vira-lata que (não) atendia pelo nome de Rex. A ele tributo minhas dificuldades em conviver com animais que rosnam, particularmente com os que latem e mordem. Não tenho o menor orgulho em dizer que fui mordido várias vezes. Os motivos variavam de uma casual pisada na sua cauda até uma briga entre irmãos, situação que fazia o vira-lata sempre ficar com a outra parte. Finalmente, cheguei à conclusão que entre mim e Rex sempre houve uma antipatia recíproca que, com o tempo, foi acrescida do medo, sentimento que conservo até hoje. Não houve sofrimento no dia em que Rex morreu. Testemunha acidental da minha infância, dele me recordo apenas para tentar expurgar aquelas cenas desagradáveis em que fui atacado pela sua fúria. Passados os anos, um dia, já casado e com filhos, fui pressionado a ter um cão de guarda em casa. Sem alternativas, esforcei-me para vencer o velho ressentimento. Embora mantendo prudente distância, criei vários. O primeiro, foi um pastor-alemão adquirido a peso de ouro, ainda filhote, num conceituado canil da cidade. O animal, com pedigree e tudo, chegou a ser premiado num desfile. Afeiçoei-me razoavelmente ao cachorro a ponto de lamentar quando descobri que era portador de displasia, doença que o deixaria paralítico. Foi aí que entendi que seu pedigree era uma grande sacanagem. Quando decidimos ter dois rotweillers, cães sabidamente mais tinhosos, buscamos ajuda de especialistas. Das inúmeras orientações, guardei uma: nunca se deve dar doces para cachorro. Uma vez ingerido, esse alimento produziria devastadores efeitos sobre o metabolismo do animal, alterando completamente seus hábitos alimentares. Com adolescentes em casa, foi impossível seguir essa recomendação. Desde então, os cães deixavam até glamourosos ossos por um torrão de açúcar. Recordei-me da história dos doces dos cachorros ao acompanhar os depoimentos dos dirigentes do PT na CPI dos Correios (maior programa de auditório da TV brasileira, é bom que se registre). O PT, todos sabem, construiu sua identidade com o pedigree de nunca ter experimentado do doce da corrupção. Chegando ao poder, o Partido dos Trabalhadores caiu com incontida ferocidade em cima de todo docinho que encontrou. O resultado não poderia ser mais catastrófico: o PT estragou definitivamente o seu metabolismo. (*) É médico e professor da Universidade Federal de Alagoas.

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