Opinião
Fernando Pessoa, Ant�o e o Sapateiro
Dom Fernando Iório * Bernardo Soares é heterônimo de outros tantos de Fernando Pessoa, vate português. No ?Livro do Desassossego?, chama-nos a atenção a freqüência de imagens tiradas da vida onástica. O monarquismo cristão parece ser a figuração ideal de solidão, anonimato e dilaceramento do homem moderno. O recurso reiterado a esse campo imagético sugere o paradoxo de que essas mesmas experiências só poderiam ter um sentido positivo se pudessem inscrever-se no interior de um viver monástico. É que ?a glória noturna de ser grande não sendo nada! À frente, sinto a sublimidade da vida de um monge no ermo, do eremita no retiro, inteirado da substância do Cristo nas pedras e nas cavernas do afastamento?. Para Bernardo Soares, a vida do monge é o ideal para a solidão e a incomunicabilidade das grandes metrópoles. Santo Antão assim pensou, por isso mesmo escolheu a perfeição de vida no fazer monástico, procurando unir a contemplação de Deus ao olhar dirigido aos irmãos marginalizados. Antão, grande asceta, já chegara a uma elevada santidade. Vivia pobremente, estando sempre a rezar. Faltava-se, entretanto, o essencial para chegar a ser aquele verdadeiro monge: o dom da oração pelos homens pecadores. Certa feita, tornou-se inquieto com seu progresso espiritual, ao saber, através de um anjo, haver humilde sapateiro de Alexandria que progredira mais do que ele na santidade. Angustiado com essa revelação, foi Antão, imediatamente, à cidade da Perdição ouvir do próprio humilde sapateiro o segredo de sua progressiva santificação. Interessante é o diálogo: - Que de extraordinário tu fazes para te santificares neste ambiente? - Na verdade eu faço sapatos... - Certo. Mas, deves ter algum segredo. Como vives? - Divido minha vida em três partes: a oração, o trabalho e o sono, reservando 8 horas para cada coisa.... - Ah!... Pois eu rezo o dia inteiro. Não deve ser isso... E a tua pobreza? - Outras três partes: uma para a Igreja, outra para os pobres e outra para mim... - Mas eu dei tudo quanto tinha... Deve haver algo mais - Não percebes - Não. - E consegues suportar as pessoas que não sabem distinguir a mão direita da esquerda e que, com certeza, vão para o inferno? - Oh! Com isso não me posso acostumar... Não agüento isso, perturba-me muito. Entretanto, concluiu o sapateiro: sempre peço a Deus que me coloque vivo no inferno, mas salve essas pessoas. Ouvindo essas últimas palavras, Santo Antão retirou-se cabisbaixo, dizendo: agora compreendo que nunca cheguei a tanto: ir vivo para o inferno para salvar os pecadores!? (*) É bispo de Palmeira dos Índios.