Opinião
O alimento do terror
Não existe brasileiro que não esteja indignado e insultado pelo covarde assassinato cometido contra o jovem Jean Charles de Menezes. Aos 27 anos, tentou fugir de pessoas armadas (para ele, seriam assaltantes ou terroristas?). Imobilizado pelo grupo, hoje estimado em 20 policiais à paisana, levou sete tiros na cabeça e um no ombro. Segundo uma aterrorizada testemunha, o jovem ?asiático? foi seguro pelos algozes contra o chão do vagão do metrô e: ?Bang, bang, bang...?. Em linguagem de história em quadrinhos, um perplexo súdito de sua majestade descreveu a cena de horror que tinha testemunhado. Bair, chefe de polícia homônimo do Chefe de Estado inglês, nos momentos seguintes ao assassinato, garantia ao mundo que a polícia inglesa executara um terrorista e explicava que os tiros haviam sido deflagrados contra o crânio do suspeito para evitar a explosão de bombas que poderiam estar sendo conduzidas coladas ao corpo. Dias depois, a assustadora notícia: a vítima não era terrorista, não tinha nem um traque consigo. Insultados, aos brasileiros resta a dignidade do protesto. E a todos que não tenham cara de inglês e quiserem andar pelo Reino Unido, resta tomar muito cuidado. Para não deixar dúvidas, o Blair policial reafirmou, depois da confirmação da execução sumária do inocente brasileiro, que continua em vigor a orientação de ?atirar para matar?. Pode-se justificar a frieza assassina desta orientação com a frieza assassina dos terroristas que mataram dezenas de inocentes em Londres, que pode ser explicada pela frieza assassina das forças armadas da Inglaterra e dos Estados Unidos em trucidar milhares de civis iraquianos, causando mais óbitos que o ensandecido terror dos insurgentes, numa ciranda mortal. Sangue justificando sangue. Infinitamente. Voltamos ao tempo da lei de Talião: olho por olho. É barbárie da cegueira globalizada.