Opinião
COLCH�O DE CAPIM
Lembro-me bem que a educação recebida em casa nos imprimia um respeito muito grande aos bens públicos, pelos professores e autoridades. Não se conjugava na prática e tão escandalosamente os verbos depredar, espoliar e muito menos corromper. Acontecia, porquanto sempre houve desonestidade, corporativismo, fisiologismo e até cinismo. Parece-nos, entretanto, que havia mais gente decente e confiável ocupando cargos no governo, ou nos representando nas assembleias e no senado. Sem querer julgar, lembro muito bem que meu pai foi secretário da Fazenda durante todo o mandato de um Governador que era considerado pela elite, doido varrido e mal-educado. Mas era honesto. Ninguém lhe apontou falcatruas. Apesar de sermos filhas de um Secretário de Estado e depois deputado, dormíamos em colchões de capim, muito usados pela classe média pobre. Como eu ainda ?mijava na cama? aos sete anos, mamãe chamou um velho mendigo de saco nas costas e pediu, falando alto para eu ouvir. Queria que ele me levasse, caso eu não deixasse de molhar o colchão, todas as noites. Ele disse sim, e eu, apavorada, passei a noite em claro, mas estanquei. Naquele tempo já existia o de molas, da marca Divino. Esse aí só chegou à minha cama, como presente dos deuses, aos dezesseis anos. Mas desde aquela ameaça, não mais foi preciso colocar o colchão no sol... Dr. Adalberon, meu Pai, pedira um empréstimo à Caixa Econômica e, como não foi reeleito para a Assembleia, vendeu a nossa fazenda Ouro Verde de porteira fechada. Gado, móveis e todos os utensílios para saldar a dívida antecipadamente. Honrava compromissos. Não dispunha de secretárias, telefones, caixa dois, ou malas. Nem tampouco inclinação para se locupletar. Era portador de um mal incurável: A honestidade. Felizmente não foi reeleito, mesmo perdendo a fazenda. Isto porque na legislatura seguinte, houve um tiroteio que matou o deputado Humberto Mendes e feriu muita gente. Como meu pai tinha coragem e topete, poderia nos deixar órfãs. Indevidamente. Por incrível que pareça, mesmo dormindo em colchões de palha somente substituídos quando afinavam, virando pó, fomos felizes. Sem saber o que era dinheiro fácil, nem sentir o pavor da PF nos calcanhares.