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Os defeitos dos outros

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| Marcos Davi Melo * O tempo passa e o ser humano continua o mesmo. Principalmente em algumas particularidades como só ver os defeitos dos outros e nunca os seus próprios. Há tempos o Marquês de Lambert alertou: ?Vivemos com os nossos defeitos como com os cheiros que carregamos; já não os sentimos; eles só incomodam aos outros?. Sentimos na própria pele isto todos os dias: no trabalho, no lazer, mesmo na convivência com as pessoas mais próximas. Isto está sendo constatado na CPI dos Correios à medida que os trabalhos vão avançando e se vê o óbvio: o esquema de financiamentos de Marcos Valério não privilegia apenas o PT, mas vigora há muito tempo e contemplou anteriormente a atual oposição; o PSDB e seu presidente, o senador Eduardo Azeredo e o PFL. As pessoas diante de um escândalo como este sentem-se tomadas por uma justa indignação e uma ira santa e grande parte delas tem razões para tal. Mas não todos e entre estes muitos dos que condenaram veementemente os petistas na CPI e no próprio Congresso têm algum tipo de comprometimento, mesmo que em outras circunstâncias. Alguns incendiários, irresponsáveis e inconseqüentes generalizam e estendem as aberrações ali constatadas para outras atividades da vida, como se fossem santos franciscanos. São como os inquisidores de Torquemada que queimavam as moças nas fogueiras da inquisição, porque eram tão jovens e belas e lhes despertavam tamanha luxúria que não tinham como descarregar, a não ser eliminando a bruxa na fogueira; extinguido ali as sensuais razões de seus tormentos, já que não tinham coragem para consumar as tentações da carne. Vivem de aparências, jamais fizeram uma autocrítica, se o fizerem, desmoronam. A extensão do esquema de Marcos Valério, retroativamente, a importantes lideranças da oposição, mostra que basta surgir uma pequena oportunidade para que se jogue na fogueira a bruxa alheia, salvaguardando os seus próprios demônios em baixo do tapete. Ressurge aqui não somente a hipocrisia, mas a velha e eterna questão de os defeitos alheios serem os únicos importantes. Não se use, todavia, esta situação concreta -- a extensão das irregularidades -- para se promover a generalização e a banalização das mesmas, a acomodação de interesses e a promoção do final deste escândalo em pizza. Mas para se considerar propostas equilibradas como a do senador Jéferson Peres, que propõe uma agenda mínima que possibilite o País sair deste atoleiro, sem desgastes ainda maiores para a economia e sem que existam prejuízos para a apuração total e imparcial dos fatos. (*) É médico.

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