Opinião
Com�rcio de armas, omiss�o ou prote��o?
| RONALD MENDONÇA * Com redobrado cuidado li o artigo do desembargador Humberto Martins, publicado na Gazeta de Alagoas de 26/07/05 sob o título ?A campanha de desarmamento?. Com a lucidez habitual, o ilustre articulista defende as mobilizações que pretenderam reduzir a quantidade de armas de fogo mantidas pela população civil, convencido, como a maioria, de que quanto menos armas, menos violência. O tema é oportuno sob vários aspectos, inclusive pelo fato de o atual ministro da Justiça, doutor Márcio Bastos, já ter expressado, em diferentes ocasiões, sua descrença sobre a real validade de um controle mais rígido na venda de armas. Os comentários do desembargador também ganham contornos especiais porque estamos a poucos dias de um plebiscito que decidirá sobre a permanência ou não desse comércio. Que o portar armas já se mostrou potencialmente devastador é algo que nem vale a pena insistir. Há pouco mais de um mês, os alagoanos receberam a notícia de que um garoto de 18 anos perdera a vida estupidamente, baleado à queima-roupa por um colega, sem qualquer motivação. Se ato intencional ou não, ao se espremer a tragédia, ficou claro que nada teria ocorrido se não houvesse uma arma clandestina na mão do assassino. Segundo o noticiário dos jornais, o artefato teria sido adquirido nas sombras da Rua do Comércio. Aliás, sobre o comércio ilegal de armas, o desembargador Martins, no aludido artigo, lamenta como ?é difícil de entender a facilidade como as armas clandestinas são vendidas em qualquer esquina, sem que se consiga pôr um paradeiro nesse comércio criminoso?. Oxalá, leitor, fosse só isso. No mês de novembro de 1999, dois filhos meus foram assassinados na nossa residência, praticamente enquanto dormiam. Planejado e executado por um jardineiro que morava na casa, no duplo homicídio, bárbaro sob todos os ângulos, ficou demonstrada a existência de uma macabra rede de partícipes. Com roubos antes e após os crimes, uma intrujona foi identificada (uma certa ?dona Olímpia?) que receptava os valores roubados da casa; houve uma compra clandestina de um revólver - cujo vendedor foi um militar ?engajado? do Exército. Finalmente, uma loja de armas (?Colt 45?) forneceu, da maneira mais irresponsável possível, a caixa de balas que matou meus filhos. A omissão - a benevolência cega e irracional - com que se lidou com essa gente talvez ajude a entender melhor os porquês do florescente comércio clandestino de armas em Alagoas e no Brasil. (*) É médico de professor da Ufal.