Opinião
Talento escondido
| Eliane Rosa e Silva * Durante as idas e vindas no trajeto da nossa tumultuada Avenida Fernandes Lima e diante das paradas obrigatórias dos semáforos, percebemos a disputa entre crianças, adolescentes e jovens querendo limpar os pára-brisas dos carros; alguns aproximam-se tentando vender frutas, chicletes, feijão verde e acessórios de veículos. São momentos até ?festeiros?? para eles, ao mesmo tempo aborrecidos para os irmãos impacientes aguardando apenas a liberação a seguir seu destino através do sinal verde. Numa dessas tardes corridas, deparei-me no engarrafamento. Serenei meu ânimo e tornei a observar aquele adolescente já conhecido pela sua maneira de pedir esmolas diferenciado dos outros: muito magro, estatura mediana, com seus dezessete anos talvez, sardas, cabelos cacheados em cor de ferrugem. Sempre apertando e segurando sua barriga, olhos quase fechados, os lábios pronunciavam qualquer coisa. De compreensível só a certeza que soava um pedido de ajuda. Liberada pelo semáforo desisti dos compromissos, estacionei o carro bem próximo ao Hospital dos Usineiros. Observei-o mais uma vez e fui surpreendida: tudo não passava de uma encenação. Continuei analisando-o e assistindo sua repetida abordagem a cada automóvel parado. E o ?ferruginho? repetia as cenas com perfeição, convencendo ao benfeitor. E, estupefata, substitui a indignação pelo questionamento: o que leva adolescer lutando contra a fome encenando uma dor em cima da provável real? Usando sua criatividade para sentir-se sobrevivente no submundo! Resolvi abordá-lo, sorri e perguntei à queima-roupa: ?Você topa fazer teatro?? Ele, sobressaltado, sorriu. Incentivei-o à freqüência as aulas e aconselhei-o a ser testado pela professora de artes. Insisti. Passaram-se alguns dias, meses, sempre que oportunamente cobrava. Até que, durante um período, seu sumiço tornou-se longo. Certo dia, um dos seus colegas me garantiu que ele voltara às aulas. Fiquei contente. E uma noite chuvosa, visibilidade difícil, obedecendo ao semáforo, parei o carro e ouvi duas batidas no vidro da porta, e eis minha surpresa: Ferruginho todo molhado, menos pálido e dono de um sorriso largo e bonito. Ofereceu-me dois ingressos para sua estréia na peça teatral da escola. Estive presente no dia marcado, durante a apresentação elevei meus pensamentos ao alto agradecendo as bênçãos. Hoje, o nosso ator é assíduo às aulas, trabalha como jornaleiro, e é integrante do Grupo Noturno de Teatro. Refletimos: a caridade é o amor em ação, observemos melhor os menos favorecidos, descubramos seus talentos, e façamos algo para seu crescimento pessoal e espiritual. (*) É professora de Educação Artística.