Opinião
A hist�ria suplementar
| IZABEL BRANDÃO * No final dos anos vinte, a escritora inglesa Virginia Woolf acrescentou um novo sentido à palavra ?suplemento?. Para ela, a palavra também significa adicionar algo que falta, que não foi incluído em algo que já existia. O que deveria ser suplementado não era descartável, conforme o sentido habitual ainda hoje concedido à palavra. O contexto de suplemento nos dias de hoje é ainda muito necessário. Na época de Woolf, o sentido que ela queria dar à palavra se relacionava à história que, por muitos séculos, omitiu a presença da mulher na construção da sociedade. Assim, o suplemento significaria uma correção histórica a uma terrível e injusta omissão. Para nós hoje, o sentido desse suplemento é pertinente, porque nossa história de sempre tem feito concessões as mais terríveis possíveis. Quem leu as revistas e jornais desta semana, certamente, deparou-se com os panos quentes que figuras ilustres da nossa história recente do País (como o ex-presidente FHC) estão querendo colocar na CPI dos Correios: querem que deixe o problema da corrupção só com o presente, o que passou já é história, segundo escreve uma dessas conhecidas revistas. Ora, deixar de escavacar o passado recente porque já é ?história? é o mesmo que dizer: só o presente é importante e tudo o que aconteceu antes já deixou de ter reflexos na vida dos brasileiros. Isso é tripudiar da seriedade das instituições e querer que a pizza dos políticos imorais saia já do forno. E, claro, o cidadão honesto que vá cantar noutra freguesia. Penso, ao contrário, que toda a história recente precisa também ser desvendada, se queremos respirar moralmente um ar limpo no País. Suplementar a história brasileira hoje significa cortar a carne podre seja de qual partido for. Significa fazer justiça aos brasileiros que já se cansaram de ouvir promessas que nunca se materializam. Significa alertar a todos que o passado errado pode ter conserto no presente. E a partir daí se construir um futuro que seja bom para o povo e não para uma minoria. Já vivemos uma ditadura. Quem já se esqueceu dela? Vivemos a transição das Diretas Já, que levou uma esperança ao túmulo com a morte de Tancredo Neves. E hoje, temos que nos esquecer que, enquanto servidores públicos estão à míngua há mais de uma década, há uma elite vampira que quer se manter no poder às nossas custas, e a qualquer preço? Que há um outro corrupto-mor, esse Marcos Valério, que se vê na condição de querer, inclusive, manipular a justiça com negociações escusas sobre o que dizer; e ex-presidentes querendo fechar o olho da história para situações que, certamente, são anteriores ao governo Lula? (*) É professora da Ufal.