Opinião
Tal homem, tal Estado
| Sérgio Costa * Eis alguns frutos da lavra política representativa: malas com dinheiro frio, dólares esquentando saco escrotal, dízimos da fé viajando nos sacolões dos pecadores, caixa dois comprando o caráter de representantes públicos. Fazendo apologia à ética, a oposição vai à tribuna e diz que esses produtos estão infectados pelo mal da imoralidade. Nota-se, porém, que ela não se sente confortável para apontar as reais causas da contaminação. Curioso, perguntei-me qual seria a força que impulsiona o homem a cometer tantos desvarios? Algo me dizia que a resposta iria esclarecer porque o nosso Estado é o que é: subtraído, endividado, desacreditado e incapaz de oferecer bons serviços públicos aos seus cidadãos. Ousei decifrá-la. Iniciei varrendo da memória os ?inúteis? 500 anos da nossa história. Queria partir do zero. Mas o processo de obliteração mental não conseguiu remover um resíduo ignóbil, mas deveras importante para elucidação do problema, qual seja: o homem é ladrão, hipócrita e egoísta por natureza. Calma, leitor, para apresentar o diagnóstico é necessário não só escancarar nossas vísceras. Temos também que esgarçá-las. Continuemos, pois, com o nosso trabalho de dilaceração. Justiça, onde escondeste a tua espada que a nação não consegue erguê-la contra os conspiradores da pátria? Democracia, onde estão os teus poderes independentes e harmônicos que não conseguem enxergar os privilégios? Comunismo e liberalismo, por que as forças das tuas ideologias não conseguem mitigar o flagelo da fome e da miséria? O silêncio evidencia a causa principal de todos os nossos males, qual seja: a impunidade. Ela transportou o homem de volta ao seu estado natural, fazendo-o perder o medo da justiça. Não menos pior: arrancou-lhe o coração. Resultado: as instituições públicas que ele representa e os ideais políticos que ele defende transformaram-se em meras ferramentas com as quais realiza seus projetos particulares. Leitor, não é por acaso que o mundo gira e a história se repete no rodar gigante e abarcante da mão egoísta do governante. E, quando a república subtraída começa a descobrir suas travessuras, o homem, hipócrita que é, muda a rota das discussões para proclamar um novo tempo. Aí anuncia reformas na legislação, troca-troca nos ministérios e alianças partidárias. Passos tímidos e banais diante das incertezas e angústias do nosso tempo. Assim fizeram os homens dos governos anteriores. Assim fazem os do atual. Assim farão os futuros governantes. ?Tal homem tal Estado?, concluiria Platão. É necessário, pois, conhecer e analisar as inquietudes do homem. Urge civilizá-lo. (*) É contador.