Opinião
Um s�bado e Jos� Apr�gio Vilela
| Luiz Sávio de Almeida * Zé Aprígio terminou sua luta. Faz tempo que ia e vinha de batalhas e cansou, o que não significa ter sido derrotado. Tive poucos momentos com Zé Aprígio, momentos de ficar conversando intimidades de vida, repassando fases, dizendo como cada um via o mundo, abrindo a guarda. E meu relacionamento com ele era meio estranho, pois sempre senti uma real e profunda amizade, apesar de não vivermos de conversas. Lembro-me particularmente de um sábado. Por um desses acasos, ele aportou no Buraco da Zefinha e, quando a farra seguia esticada, puxamos duas cadeiras e ficamos de conversa por par de horas. O resultado é que a vida saiu e a grandeza humana da pessoa que falava comigo crescia. Foi a primeira vez que ele se deu realmente a conhecer: que cara bom. Ele brincava: ?Você é um homem!?, falava. Um dia colocou o braço em meu ombro e disse: ?Guardei um negócio que você escreveu, nas minhas coisas!?. Achei interessante, por ver o industrial José Aprígio, dono disso e dono daquilo, com os velhos guardados das velhas pessoas das bandas do Rio Paraíba. O que um industrial de costados rurais guardaria? Foi a pergunta em minha cabeça. Certamente, muita coisa que lhe dizia pessoalmente sobre a vida. Pois bem, este homem adoece e acompanho como sempre de longe, mas cuidadosamente. Em torno de um mês falei com ele; era uma voz cansada, como quem pedia desculpas por não estar diferente. Depois, ida para São Paulo, a morte, o corpo; para mim ficava o cara de uma longa, íntima e sensata conversa de um sábado. Antes dele ir para São Paulo, mandei-lhe um recado: ?Sávio mandou dizer que escreveu uma besteira e ofereceu a você!?. Não vai ler. Quando eu estava no cemitério, vendo o corpo, a tristeza da esposa, o choro dos irmãos, a face dos parentes, olhei para mim mesmo e me senti integrado àquele quadro, pois eu estava ali, levado por uma pessoa revelada em um sábado. E no meio de toda aquela dor de saudade que invadia o campo santo, comecei a sonhar a harmonia universal que se daria, caso toda a humanidade decidisse revelar-se, mesmo que fosse em um único e passageiro sábado. Será que você guardaria este papel lá no meio das suas coisas? A partir de hoje, não nos veremos mais. Mas a ausência jamais venceu a amizade e admiração que sempre tive, por uma pessoa boa, simples como são boas e simples as águas do velho Rio Paraíba. Um abraço e até Deus sabe quando! (*) É sociólogo e doutor em História.