Opinião
Como uma onda
| Eduardo Bomfim * Tenho ouvido muitas pessoas angustiadas com o quadro político nacional. Pode-se afirmar que existe na alma de várias delas uma aridez, como Brasília no período da estiagem. É preciso, no entanto, lembrar a frase do filósofo: ?Ainda não é noite o dia todo, ainda há uma manhã para cada noite?. Não há porque fugir da realidade concreta. Impõe-se enfrentá-la com a lucidez da razão. Certa época, nos meus tempos de adolescente, desembarcando em meus dezessete ou dezoito anos, houve uma reunião de dezenas de jovens do movimento estudantil, em um antigo casarão na Pajussara, daquilo que se chamava em plena efervescência dos idos de 1968, como ?parcela avançada? de lideranças. Um clima de entusiasmo espalhando-se pelo ambiente. Todos nós parecíamos estar em vias de mudar o mundo, ou pelo menos o Brasil. Em plena ditadura, respirávamos liberdade e uma certeza absoluta da vitória contra o arbítrio. Íamos acabar com as injustiças sociais. Surgiu uma polêmica, sempre havia uma tempestade delas, sobre o lema do movimento hippie, embora não existisse na reunião nenhum membro desse grupo. No máximo, alguns de tendência anarquista inspirados no Maio de 68 em Paris, com o ideário ?é proibido proibir?. A questão resumia-se em achar algo que contrapusesse o slogan ?faça o amor e não a guerra?, defendido pela juventude norte-americana, contrária à guerra do Vietnã. Como tudo estava em pauta, da falta de água nos bebedouros dos colégios, da liberdade sexual feminina, dos movimentos de libertação contra o colonialismo, à música popular brasileira com ou sem a guitarra, esse tema não podia passar incólume. Algum iluminado, resolveu a contenda com a junção dos propósitos, ?faça a guerra e o amor?. Passamos ao outro ponto da extensa pauta. Depois, surgiu o AI 5, os anos de chumbo. O tempo virou, o movimento minguou. Vieram as torturas, mortes, clandestinidade, a resistência sofrida. Mas a luta continuou assim como o movimento hippie espalhou-se pelo mundo e adquiriu a sua forma tropical. Aconteceram revoluções e contra revoluções, o Vietnã derrotou o gigante. Em 1984 o povo, aos milhões, fez comícios pelas Diretas Já, derrotou a Ditadura, que se arrastou até o Colégio Eleitoral, com a vitória de Tancredo Neves contra Maluf. Não mudamos o mundo como queríamos. Mas como ele mudou. Nunca mais foi o mesmo. Hoje os conservadores neoliberais atacam e a resistência se impõe. O Brasil persiste, ousando seu futuro de paz, justiça e soberania. Porque o sentimento progressista se renova a cada época, rebelde, imperecível, generosamente disposto a mudar os ventos e os tempos. (*) É advogado.