Opinião
Quadro ca�tico
Com uma penada, ao elevar o valor do salário mínimo de R$ 300,00 para R$ 384,29, o Senado deu uma demonstração de quão fragilizado está o governo Lula e como os destinos do Brasil estão se tornando alvo de perigosas brincadeiras de péssimo gosto. Naturalmente, o novo valor do mínimo tem mínimas chances de vigorar de fato, pois essa disposição legal ainda tem de ser votada na Câmara e depois receber a sanção do presidente da República (que já antecipou seu óbvio veto à medida, caso ela seja despejada em sua mesa). Não se discute a pequenez do valor do salário mínimo para quem o recebe, mas igualmente é indiscutível que, funcionando com indexador prático da economia, o valor do salário mínimo não pode sofrer alterações súbitas e significativas sem causar um pandemônio em todo cenário econômico. Caso um inopinado salto deste tipo viesse a se confirmar, entre os primeiros reflexos haveria uma explosão das relações informais e, na formalidade, poderia advir uma grande onda de desemprego, além de prejuízos incontáveis para todo o universo empresarial (as micro e pequenas empresas seriam as mais castigadas). No universo público, seria um golpe profundo nas combalidas contas previdenciárias, com o acréscimo instantâneo de algo como R$ 11 bilhões a mais nos gastos da seguridade social. Segundo o senador Ney Suassuna (PMDB-PB), com a validação de uma decisão desta magnitude (ou mesmo um aumento menor, como apenas mais R$ 10,00), três mil municípios estariam incapacitados de cumprir o determinado pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Até parlamentares da base governista votaram pela alteração no valor do salário. Cenas de um cenário aterrorizante, onde os descaminhos no horizonte indicam desfechos que deveriam ser indesejáveis para todos.