Opinião
Z� Apr�gio, o solid�rio
| Marcos Davi Melo * Já contamos parte desta história neste espaço, mas diante do falecimento do Zé Aprígio não poderíamos deixar de recontá-la, no mínimo para prestar-lhe uma modesta homenagem, e, pelo exemplo de bom caráter e de solidariedade, merece ser recontada mesmo daqui há 100 anos. Depois de uma longa e desgastante luta, a Santa Casa ia receber em comodato com o Ministério da Saúde os avançados equipamentos de radioterapia. Eram máquinas de última geração que somavam mais de dois e meio milhões de dólares. A instituição tinha um prazo exíguo para providenciar as instalações que deveriam alojá-las e não existia dinheiro para as obras. Partimos em busca de auxílio no empresariado local e felizmente, a primeira pessoa que procuramos foi o Zé Aprígio. Ele que então tinha muita saúde adotou a idéia e liderou um grupo de empresários na arrecadação que doou à Santa Casa 140 mil reais, o suficiente para iniciar as obras da radioterapia. Estes aparelhos estão instalados e já tratamos mais de dois mil pacientes com câncer, a grande maioria gente muito pobre. Algum tempo depois, ele foi acometido pelo câncer raro e agressivo. Quando voltou de Nova Iorque nos chamou e declarou que queria se envolver ainda mais nesta luta e concluímos que a prioridade era uma casa de apoio para os pacientes pobres do interior de Alagoas. Ele escolheu e comprou o terreno, aprovou o projeto arquitetônico do Pedro Cabral, construiu e entregou a Casa de Apoio Lenita Vilela pronta. São 26 confortáveis leitos que ele satisfeito visitou várias vezes e que em um ano já alojou mais de 350 pacientes carentes do interior com câncer. Aproximamo-nos alguns anos antes quando o bloco carnavalesco Pinto da Madrugada surgiu. O Zé Aprígio apoiou, participou desde o seu início e logo depois quis conhecer o Galo da Madrugada do Recife. Fomos juntos com as nossas esposas Themis e Ivanelza. Ele ficou impressionado, mas como sempre generoso, em plena folia do Galo exclamou: ?Isto aqui é gigantesco, mas o Pinto é melhor!?. Depois continuou colaborando e mesmo adoentado participou sempre que o Pinto saiu. A sua brava esposa Themis na beira do túmulo ainda teve forças para postular que o exemplo do Zé Aprígio precisava ser multiplicado. O Ênio Lins, em bela charge publicada na Gazeta de Alagoas, mostrou-o chegando ao céu para alegria do velho Teotônio. E plagiando o Mário Quintana: ?No céu ele foi recebido por uma banda de música, tocada por anjinhos com os sovacos suados, executando um dobrado da nossa infância como se estivessem no coreto da Viçosa?. O Zé está em casa. (*) É médico.