Opinião
Resist�ncia e coer�ncia
| José Elias * Direita de cima, a esquerda se resumia a poucos ?gatos pingados? em Alagoas e, cabeça de fora, raríssimos voluntários enchiam o peito de ar para se identificar ideologicamente. Alguns, escondidos, gostavam de se definir como ?militantes na clandestinidade?, enquanto outros preferiam ?ajudar? - de longe - para não se comprometer com o sistema. No auge da ditadura, no decorrer dos anos 70, um cidadão consciente do seu papel na sociedade assumiu, de corpo e alma, a defesa intransigente dos direitos humanos. Prisões nas caladas da noite, perseguições no local de trabalho, na sala de aula, na esquina, estavam lá, protestando, a solidariedade e a luta de Eduardo Bomfim - ainda muito jovem. Regime de exceção em pleno vigor, o PCdoB aparece aqui para fazer história e, na mesa dos bares, em reuniões fechadas, serviu de instrumento como foco de oposição aos militares. Infiltrado no MDB ? na época do bipartidarismo ? tremulou a bandeira nas manifestações mais importantes já registradas no Estado. Campanha por eleições diretas, o partido ficou na linha de frente, misturado à multidão, mesmo contra a vontade dos poderosos, que não aceitavam a volta da democracia. Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, o velho Teotonio Vilela nas ruas, presença marcante no palanque também dos combativos representantes alagoanos. A nova geração não assistiu, mas o PCdoB comandou as massas, lotou praças públicas, fechou ruas em caminhadas históricas como, por exemplo, em favor da anistia ampla, geral e irrestrita. O tempo passou e, aos poucos, com a chegada do pluripartidarismo, a sigla foi definhando. E, hoje, a memória de muita gente apagou o filme. Nunca mais a Assembléia Legislativa vai registrar em seus anais um time tão representativo como a bancada que o povo ? num grito de liberdade ? elegeu em 1982. No plenário, falando a linguagem que a população exigia, além de Bomfim, Ronaldo Lessa, Selma Bandeira, Mendonça Neto, Alcides Falcão, Ismael Pereira e Moacir Andrade, independentes na palavra e nas ações. Volta à normalidade, abertas outra vez as urnas, muitos ?comunistas? esqueceram o passado e, rápidos, pensando que ninguém percebeu, pularam para o outro lado, jogando a biografia na lata do lixo. Aderiram, de imediato, aos governos e seus privilégios e, num discurso de cabeça pra baixo, passaram de operários a patrões. Mas, sem sair um milímetro do lugar, Bomfim não se intimidou com a queda e, mesmo na solidão, não abandonou o campo de batalha. Depois de estadual, eleito deputado federal, foi constituinte nota 10 em Brasília e, em seguida, Maceió o conduziu à Câmara de Vereadores, em reconhecimento a sua correta atuação parlamentar. Ontem, no Palácio, reassumiu a secretaria estadual de Cultura, a convite do governador Lessa, de quem sempre ficou junto. Bomfim é, seguramente, um dos poucos políticos que resistiu aos pecados do poder e, como começou ? pobre, decente, honesto, respeitado ? mantém a coerência na vida pública e na postura de homem, embora injustiçado em algumas oportunidades. (*) É jornalista.