Opinião
Mist�rio e revela��o
| GILBERTO DE MACEDO * Mistério é o que não se percebe, nem se conhece; ignora-se. É o total desconhecimento; é a absoluta escuridão mental, não se vislumbrando qualquer indício de realidade imperceptível e inimaginável, é a inexistência. Não cabe cogitação pessoal. Para o mesmo, porém, está voltada a investigação científica, em busca da descoberta. Quando esta acontece dá-se a revelação; que é o oposto do mistério. Aí, então, é quando cabe dizer com o notável sábio Wittgeinstein: ?O mistério não existe?. A revelação é a descoberta do mistério nos esconderijos da realidade. E como esta não tem fim suscitando um novo mistério, eis que cada descoberta suscitando outros jamais termina no desvendamento, a investigação científica nunca termina. Isso porque não dispomos dessa ilimitada capacidade para descobrir tudo, de uma só vez. Tanto mais quanto o mistério acontece em várias modalidades: mistério físico, mistério social, mistério humano. Daí a sábia advertência de Omar Khayan: ?Contenta-te em saber que tudo é mistério; a criação do mundo e a tua, o destino do mundo e o teu?. É da limitação intelectual e pessoal que não é capaz para, de uma só vez, desvendar o infinito misterioso, por isso cabe o conselho de San Isidoro de Sevilha: ?Não tenhas curiosidade de conhecer as coisas ocultas?. Insistir nisso tudo seria insensatez. Assim, a oportunidade do filósofo Balmes, ao dizer: ?A pessoa é mistério?. Mistério humano tão enigmático que levou Tagore, com toda sua sabedoria, a advertir: ?Não podes ver o que és, o que vês é a tua sombra?. É mesmo do inalcançável envolvimento do ser humano, impondo a participação, a um só tempo, de investigadores de várias áreas científicas, caminhando, passo a passo, na busca do conhecimento dessa realidade. Não é possível revelar-lhe os segredos na plenitude de sua existência, conforme lembra Chesterton: ?tirem o sobrenatural, e o que fica é o anti-natural?. É que no ser humano, passa-se, em continuidade, do biofísico ao vital, psicossocial e espiritual, mostrando a máxima dificuldade para esclarecer esse segredo. Assim, como nos permite imaginar a poesia de Henriqueta Lisboa: ?Na morte, não, na vida./ está na vida o mistério/... no suborno/ das silenciosas palavras?. No ser humano, pois, o maior mistério. A revelação, no seu conhecimento, é tarefa interminável da ciência e da filosofia. Isso não quer dizer desânimo. Ao contrário, há de prosseguir interminavelmente. É a manifestação da curiosidade em desvendar os segredos, ao procurara conhecer a realidade. Missão interminável da ciência, fornecendo o material para a conquista da verdade através da lógica do pensamento. (*) É médico.