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Casa de Orates

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| RONALD MENDONÇA* Imitando Simão Bacamarte, ouso afirmar que, no estágio em que as coisas se encontram, a corrupção no Brasil deixou de ser uma ilha perdida num oceano de honradez; é um continente inteiro. Na verdade, quando proferiu a sentença original, o psiquiatra Simão Bacamarte tinha os olhos grudados no binômio loucura/razão. Personagem central de O Alienista, célebre conto de Machado de Assis, Bacamarte não perde a contemporaneidade. Formado em Coimbra, nosso herói fixou residência em Itaguaí, interior do Rio de Janeiro, onde se debruçaria com disciplina e afinco no estudo da loucura. Não foi pequeno o orgulho da acanhada cidade que de uma hora para outra se viu possuidora de duas jóias raras: um grande médico - verdadeiro cientista - e um hospício, por ele fundado e dirigido, denominado Casa Verde. A finalidade do hospício não era outra se não a de internar para estudo e tratamento os loucos ?óbvios?, conhecidos de todos, e que pelo visto não eram poucos. Disposto a solucionar definitivamente o problema da doença mental, o irrequieto Bacamarte ampliaria o leque de abrangência da insanidade, fato que o levaria a confinar na Casa Verde algumas pessoas influentes da vila, tidas até então como absolutamente normais. Desconfiado, o morador de Itaguaí passaria a temer o alienista, evitando até sair de casa para não correr o risco de encontrá-lo. Emitir comentários na sua presença, nem pensar, pois nada escapava ao inclemente olho clínico do especialista. De todas, duas internações pareceram particularmente injustificadas e cruéis: a do padre, defensor incondicional de Bacamarte e a da própria esposa, uma santa e gorda criatura acima de qualquer suspeita. Daí em diante o pânico disseminou-se de vez. Fazer o quê se quatro quintos da população estavam reclusos naquela Casa de Orates? Mutatis mutandi, os ingredientes universal e atemporal de Itaguaí/Bacamarte habitam nosso cotidiano. Aqui em Alagoas mesmo, com a recente Operação Guabiru, surpreendente ação que culminou com a captura de poderosos políticos e de festejados empresários. Na ocasião, o clima esquizofrênico esvaziaria os calçadões da Ponta Verde, deixando às moscas badalados restaurantes da orla. No plano nacional, os olhos das CPIs estão enlouquecendo figurões da República. Se já não bastasse a participação de elites políticas e empresariais, agora a coisa está chegando nos vestais ministros Márcio Bastos e Antonio Palocci. A essa altura, ninguém mais duvida de que o governo virou uma verdadeira Casa de Orates. (*) É médico e professor da Ufal.

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