Opinião
Na festa dos prazeres
| Dom Fernando Iório * O Espírito de Deus que pairava sobre o caos, no princípio do ?big-bang? do mundo, invadiu a terra, no Pentecostes do Cenáculo. Maria, a mulher nº 1 da história, é aquela que se entregou, inteiramente, que se ofertou, de todo, a essa invasão do Espírito. Foi assim que o verbo de Deus se fez carne, armando sua tenda entre nós. Maria acreditou no mistério: ?Eis aqui a servidora do Senhor, faça-se em mim o que o Senhor quer?. Sem preocupação pessoal, disse sim, com toda confiança. E vibrou de alegria em Deus seu Salvador. Reconheceu-O, acreditou em que era Ele que dela precisava, necessitando de uma mãe. Doou-se, ofereceu-se: ?Eis-me aqui...? (Lc. 1,38). O que de extraordinário existe em nossa Senhora é sua fé inabalável. Entretanto, não pensemos em Maria como se fosse Ela uma Rainha inacessível, que se deve admirar de longe; antes, pelo contrário, como um exemplo cotidiano capaz de imitação. O grande perigo de se considerar Maria como absolutamente excepcional é cada devoto seu sentir-se dispensado de imitá-la, no cotidiano da vida. Poder-se-ia argüir: Ela possuía o privilégio da Imaculada Conceição. Mas, que significa Imaculada Conceição? Ter sido ela concebida batizada. Nós, também possuímos essa graça, logo após o batismo. Ela não teve o pecado original. Nós também não possuímos mais. Somos batizados. Jovem, entregue aos trabalhos domésticos, noiva de modesto operário, recebe a visita do Mensageiro de Divino, Gabriel, propondo-lhe coisas inverossímeis: Ser mãe, permanecendo virgem, gerar um Filho que é Deus... Não argumentou: não é possível, não dará certo, que é que vão dizer de mim, não me sinto preparada... Na maior simplicidade confessou: Deus é bastante bom, generoso e poderoso. É bastante Deus para realizar em mim o que está propondo. E aceitou: ?Sou a servidora do senhor, faça-se em mim o que Deus quer?. Desde então, reconheceu Maria que era Deus quem lhe pedia. Tudo por causa da exigência que fazia, levando-a a sacrificar tudo, começando pelo noivo, José, a quem nada Maria avisara, deixando a Deus a resolução do problema. José certamente pensou; ali há um mistério; não vou inserir-me nele. Retirou-se, apagou-se. Dele exigia Deus alta compreensão. Ele dormia. Desperta-o o anjo e lhe revela o mistério, silenciado por Maria. A fé de José em Maria foi a educadora de sua fé em Deus. Porque amava tanto, porque nela acreditava, elevou-se até a crer em que tudo, vindo de Deus, era bom. Maria foi paciente. Somente nossa paciência permitiria a Deus realizar em nós seus desígnios divinos. Maria contentou-se em deixar o Senhor operar nela maravilhas. Que na Solenidade da Senhora dos Prazeres aprendamos a esperar, no silêncio, as maravilhas do Senhor: ?O Senhor Operou em mim Maravilhas? (Lc. 1,49). (*) É bispo de Palmeira dos Índios.