Opinião
Os medos dos pequeninos
| BENEDITO RAMOS * Uma pesquisa que estamos realizando com as crianças entre 6 a 11 anos, do Projeto Coro dos Pequenos Cantores de Jaraguá, da Associação Comercial de Maceió, revela algumas surpresas. Estamos andando na contramão em nossos conceitos de prioridades para elas. A pesquisa, voltada a conhecer os medos e a suas relações de confiança com a família, ainda não foi concluída, mas já nos deparamos com uma realidade ainda pior do que aquela imaginada: a falta de amor, carinho e afetividade são os itens mais alarmantes. Em uma lista de familiares tipo pai, mãe, até vizinhos e professores, foi perguntado quem a criança ?acreditava? que lhe dava mais amor. As respostas passaram por quase todos os itens, menos ?mãe?. Essa fica muitas vezes, em segundo, terceiro, último lugar, perdendo para ?pai?, ?tia? e, principalmente, ?avô? e ?avó?. Amor, proteção e confiança são as representações mais importantes para que os pequeninos possam vencer seus medos, desde os mais simples como o da ?coruja?, aos mais complexos como ?sair à noite por causa de ladrões e tiros?. Razão, certamente para que a noite seja o horário do dia em que menos se sintam protegidos. A rua é ?esquisita?. E imaginávamos que muitos responderiam que tinham medo de atravessar a avenida Cícero Toledo, por causa do trânsito tão movimentado. As perguntas foram muitas vezes, ratificadas por outras com os mesmos sentidos para evitar impacto para a idade, no entanto, as respostas sinceras: ?Deus é a minha avó?. Um Deus familiar distante daquele ?velho com barba?, imaginado por quase todas as crianças. A pesquisa mal começou e percebemos a necessidade de ampliá-la, de compará-la com a de outras crianças em condições diferentes. Não simplesmente como um exercício acadêmico, mas para avaliar se estamos no caminho certo quando nos preocupamos apenas com a educação, a cultura e o apoio material. Não foi sem razão essa iniciativa. Desde o início que temos em mente que não estamos investindo em futuros cantores, apesar de termos aulas regulares de música e flauta doce, mas no aprimoramento das relações entre as crianças e o seu meio. E o que conseguimos durante esse tempo é extremamente gratificante, sobretudo em relação ao excelente desempenho na escola e ao comportamento de cada um. No entanto, conseguimos enxergar, nitidamente, que o nível de auto-estima, expectativa de proteção, amor, carinho ainda é muito baixo. Essa pesquisa e os seus resultados, renderão alguns textos com certeza, até uma melhor reflexão sobre as ações que tantos de nós empreendemos convictos de uma outra realidade. (*) É pintor e crítico de arte.