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Opinião

Para �lio Lemos

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| AYDETE VIANNA * Uma espécie de vício acomete a maioria dos leitores, esse vício de confundir o autor do texto com o eu poético. Uma quase compulsão, muitas vezes notada, que leva o leitor até mesmo a, pretensiosamente, se sentir o alvo da mensagem escrita, isto, principalmente, quando escritor e público são próximos em tempo e espaço. Neste momento, cometo esse mesmo pecado. Quero encontrar nas crônicas e na poesia de Élio Lemos o seu interior. E, em seus escritos, vejo-o atento e curioso da vida a seu redor, como a Alice, de Lewis Carroll, arregalando os olhos diante dos três pequeninos jardineiros pintando de vermelho as rosas brancas de uma roseira plantada por engano no jardim da malvada Rainha de Copas, no país das maravilhas. Para estudar seus 16 anos de vida, seu fazer literário, valho-me de páginas copiadas do livro intitulado Períodos, póstuma reunião de sua obra feita por seus mestres, colegas e amigos, ainda doridos de saudade. Era uma forma de apagar da memória aquele trágico dia 12 de outubro de 1954, quando a Cachoeira de Paulo Afonso tragou, sem piedade, o menino Élio Lemos. Era uma forma de trazê-lo de volta, no ritmo dos seus versos e na leveza da sua prosa cantados nos jornais e revistas da época. Poemas, ensaios e crônicas que, às vezes, assinava com os pseudônimos Oile Somel e Élfio. No poema intitulado Você, ele é pura esperança, quando canta: ?E ela me disse, lá do canto sujo da calçada/ que Papai do Céu me daria uma vida feliz,/ diferente da dela,/ e que uma moça/ bem boa e bem linda/ gostaria de mim...? Em outros textos, noto sua atração pela água, seja sua placidez, como no poema ?Lagoa?, seja sua agitação, que ele assim descreve em ?Torvelinho?: ?... É um cair estouvado, o das águas cachoeira abaixo./ E, lá nas pedras escuras e polidas,/ o choque fragoroso,/ o despedaçar-se de cada gota, em mil partículas./ O vento passando molhado pelo rosto da gente...? Sua vida tão breve não passou em branco. Desde o Jardim Infantil, Élio Lemos sempre se destacou. Gentil, inteligente, pleno de lealdade e bom caráter, via-se sempre escolhido para orador oficial nos eventos estudantis. Que lindo menino esse Élio Lemos, que tanta alegria deu a seus pais, Elói de Lemos França e Filomena Freitas Lemos. De quanto orgulho encheu sua família, com seu andar em linha reta na senda da dignidade e do amor, da inteligência e do trabalho! E quanto orgulho me dá o fato de, hoje, eu ocupar a Cadeira nº 7 da Academia Maceioense de Letras, que tem por patrono o magnífico exemplo desse jovem que, tendo vivido tão pouco, soube dedicar-se somente ao bem e ao belo. (*) É procuradora do Estado, jornalista e escritora.

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