Opinião
A cultura
| Eduardo Bomfim * Tenho como convicção que o significado da cultura é algo bem abrangente. Não acredito em vida cultural sem a liberdade de expressão e criação. Muito menos como linha oficial de um regime. As manifestações artísticas representam, em suas variáveis, uma expressão elevada dessa área da produção humana. No entanto, ela é bem mais ampla. Reflete as relações sociais de uma determinada comunidade, região ou país. Pode-se afirmar que, na medida em que o desenvolvimento do conhecimento da sociedade evoluiu para escalas mais avançadas, ela acompanhou a reflexão sobre os indivíduos e nações. Torna-se inquestionável o fato de que nas vocações artísticas encontra-se presente algo bem mais significativo que o acúmulo da formação ilustrada, civilizada, culta. Nestes casos, há o dom, algo mais sublime e até, em certa medida, sem fácil explicação. Como definir a genial precocidade, basicamente em sua infância, de um Mozart? Por que Miguelangelo foi tão gigante como suas esculturas e a beleza indescritível da sua Capela Sistina? Há, na verdade, um tesouro artístico espalhado pelos tempos e continentes. Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Villa Lobos, José Lins do Rego, Tom Jobim, Chico Buarque, Portinari, Castro Alves e quantos, são vocações, sofrimentos e disciplina. O conceito de cultura espalha-se também pelos outros ramos da atividade social. Encontra-se no futebol arte, paixão, sofrimento e glória do povo brasileiro, técnica e maestria encantada que emociona milhões, como um balé assistido por públicos formidáveis. Nossas manifestações populares, no guerreiro, bumba-meu- boi, pastoril, chegança, nos maracatus dos tambores silenciosos do Recife Velho, sublime, no eclético frevo, nas emboladas, na negritude sólida das várias nuances da nossa mestiçagem. As oferendas à natureza dos índios, arrebatadoras, sinfônicas e singelas ao mesmo tempo. A cultura verdadeira é universal. Mas há uma outra que não pode ser assim declarada, porque busca a dominação, a aculturação das identidades e auto-estima dos povos ou nações. É instrumento de dominação e subjugação. Cabe ao Estado, nestes tempos, incentivar as raízes e renovações do povo, em parceria com a iniciativa privada. Cultura é reflexão, beleza, elevação. Igualmente, consciência de si e do coletivo. É resistência, contradição, paixão, combate. Confunde-se com o destino de uma nação, com o grito dos oprimidos. Quem se dedica à cultura, abraça uma causa. (*) É advogado e secretário da Cultura do Estado de Alagoas.