Opinião
Desejos e limites
| Milton Henio * Vemos nos anúncios comerciais pelos meios de comunicação, com grande estardalhaço, toda sorte de promoções - do automóvel ao chinelo. O comércio quer vender, é claro, e tem que usar de todos os métodos para atrair os fregueses. E as pessoas gostam de consumir. A criança nem se fala; tudo que surge diante dos seus olhos ela quer levar. Entretanto, esse consumismo desenfreado acarreta alterações psicológicas na vida da criança, tanto o menino rico quanto o menino pobre. A criança rica ou de classe média quando vê satisfeitas todas as suas vontades e cresce acostumada a ser atendida nos menores e nos mais difíceis desejos, torna-se insaciável. A criança habituada a ganhar de tudo, a desfrutar de todas as comodidades materiais e por isso mesmo sempre procurando novas emoções e continuamente demonstrando desinteresse pelo que já possui, vai sofrer muito no futuro. A curva dos seus desejos torna-se interminável e na fase da adolescência muitos problemas surgirão. Assim, na educação de uma criança os pais têm que demonstrar-lhe o sentido da vida, o limite das coisas. Santo Agostinho já dizia: ?o inferno é aqui na terra quando você sai dos seus limites?. Muitas crianças vão crescendo sem saber o que é esforço, o que é lutar para conseguir objetivos. Precisamos dar a nossos filhos a noção exata das nossas responsabilidades, a diferença entre as necessidades reais e falsas e que ao lado das conquistas materiais devemos também dar nossa contribuição para o seu enriquecimento espiritual. Devemos dar-lhe a noção de que os valores estáveis não podem ser produzidos pela indústria nem encontrados nos prazeres efêmeros e mundanos; a vida representa, antes de mais nada, a oportunidade para nossa evolução espiritual, que tanto o excesso como a escassez podem prejudicar. As frustrações e o inconformismo que os filhos da pobreza, desprotegidos social e economicamente, podem experimentar e manifestar, são tão danosos à comunidade e ao País quanto as exigências e a insatisfação que os menores super protegidos podem cultivar e exteriorizar. Não é uma calamidade morrer sem poder realizar nossos sonhos, mas é uma calamidade não sonhar. Não é um desastre ser incapaz de conquistar seu ideal, mas é um desastre não ter um ideal a conquistar. Vamos orientar nossos filhos e netos para que eles vivam felizes dentro dos seus limites. E para que continuem a viver contentes passem a participar do mundo em sua volta, através da cultura e da realização do espírito. (*) É médico.