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Opinião

Mitologia nordestina

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| Hely Ferreira * O pensamento filosófico Ocidental nasceu por volta do século VI (ou VII ) a.C. na Grécia. Através de um processo histórico, patrocinando o rompimento do saber mítico para o apogeu do logos. Foi justamente do antagonismo entre mito e logos que surgiu a filosofia grega. Há várias formas de se aplicar o termo mito, mas etimologicamente falando, mythos significa ?palavra?, ?o que se diz?. Na política, a expressão ganhou uma conotação específica. O poder do mito é encontrado na capacidade que ele possui de mexer com a sensibilidade do povo, principalmente, em uma região carente como o Nordeste brasileiro, onde o camponês não é visto como sujeito histórico. Impedido pelo golpe de 1964, de concluir o mandato de governador de Pernambuco, Miguel Arraes de Alencar foi obrigado viver no exílio. Sua saída de forma draconiana do Brasil alimentou durante anos o afã do povo de um dia vê-lo comandando o destino do Leão do Norte. Por força da anistia, Miguel Arraes voltou ao Brasil desejoso em continuar o trabalho que havia iniciado, dentre eles, o Movimento de Cultura Popular. Depois de muitos anos distante do Brasil (vivendo na Argélia), Arraes foi testado mais uma vez pelas urnas em 1982, tornando-se o deputado federal mais votado de Pernambuco. Fruto do imaginário popular, a eleição de Miguel Arraes em 1986, para governador, reacendeu no coração do homem do campo a possibilidade de dias menos perversos, entretanto, a expectativa em relação ao novo governo de Arraes não estava limitado apenas aos grotões de Pernambuco, tanto é, que a propaganda dizia o seguinte: ?Do Sertão ao Cais, o povo quer Arraes?. Ao contrário dos mitos gregos, Miguel Arraes pouco falava sua presença já caracterizava uma mensagem. Talvez esteja aí mais um elemento que contribuiu para o fator mitológico de sua trajetória política. Embora com uma idade avançada, Arraes nunca deixou se abater, pelo contrário diferente de muitos jovens que preferem a sedução dos pólos gastronômicos ou dos carnavais fora de época, continuava lutando por aquilo que sempre acreditou, ou seja, uma sociedade mais justa. Em tempo de neoliberalismo, o nacionalismo é algo expurgado da agenda da grande maioria da classe política nacional. Certamente, Arraes fará falta, não só por conta dos seus ideais, mas também pela capacidade que possuía de enxergar os trâmites da política de maneira muitas vezes futurista. Assim como Leonel Brizola, Arraes era respeitado até pelos seus adversários, reconhecendo a sua capacidade de reflexão diante dos problemas que lhes eram apresentados. (*) É cientista político-UFPE.

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