Opinião
O benef�cio da d�vida
| RONALD MENDONÇA * Hoje, a percepção geral é a falta de ânimo para punir os deputados que prevaricaram. Parece que finalmente deu certo a esperta estratégia do PT e aliados de, na CPI, obturar os canais de possíveis comprovações. Se eticamente falando a tática é condenável, pelo viés eleitoreiro, pragmático, esses caras estão certíssimos: quanto mais expostas as fragilidades morais e éticas do PT, mais problemas eles terão para se reeleger. A grande verdade é que os acusados (tirante Roberto Jefferson e mais uns poucos) caminham para a absolvição, contemplados por suposta ausência de provas ?irrefutáveis?. Com a credibilidade em baixa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vagueia pelo País abraçado a essa tese. É a tese do benefício da dúvida. A propósito, lembrei-me da história de um promotor, célebre pela crueldade com que acusava. Consta que até recusara uma vaga de juiz -resultando em prejuízo financeiro - com o argumento de que ?tinha nascido para condenar?. O sujeito era terrível. Sua fúria acusatória correra o País. Temor, ódio e ressentimentos alimentavam a fama. Nas situações em que as provas sugeriam inocência do réu, o promotor inventava, distorcia fatos, pintava o diabo. Nos corredores do fórum, repetia à exaustão que, para ele, indício já era culpa, acrescentando que jamais vira um homem de bem ser indiciado. Um dia, o ?terror dos tribunais? soube que a esposa o traía. Disposto a ir às últimas conseqüências, providenciou um detetive particular, que dias depois, diante de toda a família (inclusive da pobre mulher que, acuada, jurava inocência a todo instante), leria um relatório. ?Na hora X, a investigada foi vista entrando num automóvel Fiat de placa tal. Minutos após, ainda dentro do Fiat entraria na mansão na rua Y, onde foi fotografada, quase sem roupas e com um copo de bebida à mão, numa das sacadas superiores do imóvel acompanhada por um jovem cabeludo sem camisa, que também bebia. Conversavam, riam e abraçavam-se. Passado algum tempo, sumiram no interior da dita residência, de onde só sairiam 2 horas depois.? Fez-se um silêncio constrangedor. Bufando de raiva, o digno representante do ministério público pergunta: ?E o que mais o senhor viu além disso?? Cauteloso, o detetive respondeu: ?Nada mais do que não está no relatório?. Aliviado, o homem esconde o rosto com as mãos e exclama entre lágrimas e sorrisos: ?Graças a Deus, não há provas, não há provas! Amor, você foi perdoada pelo benefício da dúvida!? (*) É médico e professor da Ufal.