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Opinião

Acabrunhamento

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| Enildo Marinho Guedes * Estamos vivendo um momento político instigante e de perplexidade generalizada. Mexeram em um dos nossos cristais: a esperança na política. Estamos tristes. Com muita sabedoria, somos filhos de um Deus, viemos Dele, o todo poderoso. Com Ele, vivemos protegidos do mal, tornamo-nos eternos e nos livramos da miséria: a morte. Com muita sabedoria, apaixonamo-nos. Imputamos aos outros as qualidades que só existem nos nossos desejos, amamos esses desejos e ainda incriminamos as pessoas amadas por se comportarem diferentes das nossas expectativas. Com muita sabedoria, transformamos nossos pais em super-heróis, nossas mães em santas, nossos irmãos em guerreiros e nossos amigos em parceiros desse reino, onde as pessoas, à nossa volta, banham-se nas águas milagrosas da virtude. Com muita sabedoria, usamos os sistemas lingüísticos para criarmos construtos teóricos, orientando saídas acadêmicas para a sociedade. Com muita sabedoria, criamos, adotamos ou elegemos o PT: o partido dos trabalhadores. Lula lá! - um governo diferente de tudo que já tínhamos visto até então. Nossas esperanças se iluminaram, nossos olhos brilharam, nossos braços se entrelaçaram: comoção! Enfim, livramo-nos da miséria política: o clientelismo mendicante e vicioso, o populismo personalista, o centralismo autoritário e tautologicamente corrupto; etc. Não podemos perder nossas sabedorias: ética, utopia, crença, paixão, amor, amizade são mitos imprescindíveis que encantam o nosso espírito. Viver sem mito é um mito. Com muita sabedoria, temos que nos acalentar no ventre mítico, sem destituí-lo de sua magia. O mito é fruto da incansável força cognitiva e afetiva de criar um dever-ser, um não-lugar, um sagrado cada vez mais bem elaborado, produzindo o encantamento humano. No entanto, devemos estar atentos ao maligno: a miséria humana. Com pouca sabedoria, tivemos pressa em construir o paraíso na terra e, em nome de um deus, apoiados em éticas sagradas, fizemos guerras, escravizamos e matamos muitos inocentes. Com pouca sabedoria, tivemos pressa em construir uma sociedade livre das classes e categorias sociais, tentamos transformar a nossa utopia em topia e, sob uma ética da revolução, fizemos muitas guerras, escravizamos e matamos muitos inocentes. Com pouca sabedoria, o PT capitalizou o nosso encanto. Dele não cuidou e, sob a ética maldita do poder, nos mostrou a miséria. (*) É professor.

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