Opinião
A teimosia da arte em Alagoas
| Benedito Ramos * A morte do pintor Gaspar Luiz nos pegou de surpresa. Durante muito tempo este artista, ao lado de Roberto Lopes e Rosival Lemos, representou o gosto de uma sociedade que cultuava os figurativos líricos e comportados. Muito raro encontrar alguém que não tivesse uma obra de um dos três em sua sala principal. Os dois primeiros eram simplesmente festejados, amados. Rosival, que mais tarde optou por ensinar, teve seus temas copiados integralmente. Quando o artista veio perceber já era tarde. Tentou uma transformação em seu estilo, mas sua obra mais significativa eram as suas madonas, arruados, circos, pierrôs e naturezas-mortas. Rosival tinha um colorido estupendo, sobretudo pela ação instintiva, natural, pura, quase ingênua. Roberto, esse adorava a monocromia e os tons sobre tons, principalmente em pastel. Desenhava seus temas quase num ritual de uma linguagem que se codificava em bibelôs e relógios antigos de seus ambientes senhoriais. Gaspar brincava com os terras e negros em figuras sonolentas e castas que agora, no final de sua vida, se tornaram mundanas, mas com o mesmo ar refinado. Este foi o cenário que predominou na arte alagoana durante a década de 1980. Havia outros artistas, mas nenhum com mercado tão amplo e tamanha interação com a sua clientela. Os anos seguintes foram fatais para a arte de Alagoas. Se até então havia lugar na decoração para pequenas coleções, as obras abstracionistas tiraram da parede tudo o que representava a antiga ordem figurativa. Era a ditadura de uma nova geração de arquitetos que passou a empinar o nariz para tudo o que considerava kitsch. Veio a moda das caixinhas de penduricalhos e quinquilharias em paredes cleans (palavra muito em moda) sem fetichismos. Muitas obras de artistas alagoanos foram para as cafuas, quando não para os brechós. Era a estréia de uma nova era de monotonia, monotipia, mono-qualquer-coisa, num falso minimalismo, onde não havia mais lugar para a arte alagoana. Alguns artistas abstracionistas ainda sobreviveram até que a nova moda da decoupage contrastante começou por encher os apês decorados dos canteiros de obras. Ninguém comprou mais nada. A arte em Alagoas sobrevive de teimosa. Além de tantos percalços o artista tem que lutar com a indústria da falsa obra de arte. Quando começou em Miami, na década de 1990, com as cópias de Botero (autorizadas) e outras bagaceiras, ninguém acreditou. Chegou, finalmente a terrinha. E não é diferente. E este mercado continua em ascensão, afinal o preço é ao gosto do freguês. Pior do que isso leitor, é só morrer e ser esquecido completamente. (*) É artista plástico ([email protected]).