Opinião
Independ�ncia e p�tria
| Eduardo Bomfim * Celebramos a independência do Brasil em tempos de crise, que não é a primeira e seguramente a última. Denúncias fundadas, infundadas, batalha política, ideológica, ética em questão etc. No entanto, creio, tornam-se necessárias três atitudes, para não cairmos na angústia do momento. Olharmos o passado, o presente e o futuro com os olhos aquilinos, penetrantes como os das grandes águias. Sem abstrairmos a atual conjuntura, observarmos a obra como um todo. A nação brasileira surgiu de um parto, fruto de processo revolucionário e doloroso ao mesmo tempo. Revolucionário no feito das grandes navegações, especialmente portuguesa. Doloroso, pelo massacre dos nossos ameríndios de Norte a Sul, incluindo aí a valentia indomável dos Caetés de Alagoas e Pernambuco. O chicote físico e moral da degradante escravidão dos negros virando bagaço como a cana-de-açúcar e fazendo riqueza. A nação, construindo-se em sua predominante mestiçagem, inicialmente sem identidade alguma, até virar o povo brasileiro, cujas misturas, diversidade e sincretismo cultural, tornaram-na uma sociedade singular no mundo. A pátria fez-se em seqüências, nos combates contra os colonizadores, na expulsão dos holandeses do Nordeste, com a indiferença da metrópole. Na peleja da gauchada. Os cariocas expulsando os franceses da cidade. Rio maravilhoso no inferno da violência urbana. Foi nesse sentido de conduta que os inconfidentes mineiros terminaram imolados. Sacrificados pelo mesmo objetivo inspirador dos episódios libertários. Rebeldia revolucionária que brotou em todos os tempos ásperos, fazendo jorrar o sangue generoso dos combatentes, mártires e heróis de um Brasil incompleto, como uma pintura a ser terminada. Da indignação épica de Castro Alves em Navio Negreiro, às lutas republicanas e aos enfrentamentos contra as ditaduras. Brasil que se estabeleceu como Estado, mas o seu povo prossegue na busca da libertação econômica e social. A independência é um persistente princípio popular, na busca da autodeterminação e contra as injustiças que doem em um povo com vocação para a alegria e o prazer de viver. O Brasil dos Robinhos anônimos. Nação que parece ter lido o Hélio Pellegrino em suas reflexões: ?Preciso fundar em mim a disciplina da fidelidade às verdades que me são reveladas. Fala boca, para que te possas depois calar com dignidade, para mereceres o silêncio, que vem depois, como a noite vem depois do dia?. Ou como dizia o Cazuza: ?Brasil, mostra a tua cara?. (*) É advogado e secretário de Estado de Cultura.